Numa reflexão publicada na sua página pessoal, o jornalista sustenta que não houve alterações estruturais imediatas na política de repressão herdada do período de Agostinho Neto, apesar do início de um processo gradual de libertação de presos políticos e da extinção da DISA — Direcção de Informação e Segurança de Angola.
Reginaldo Silva afirma que foi libertado em Fevereiro de 1979, ainda durante a liderança de Agostinho Neto, sublinhando que vários outros detidos permaneceram encarcerados até finais de 1980.
“JES não decretou nenhuma amnistia nem nada parecido”, escreveu o jornalista, contrariando interpretações que apontam para uma ruptura política imediata com a ascensão do então novo Presidente da República.
Segundo o seu testemunho, muitos dos antigos presos políticos continuaram sujeitos, já em liberdade, a fortes restrições administrativas e limitações aos seus direitos cívicos, numa lógica que compara aos métodos utilizados pela antiga polícia política colonial portuguesa, a PIDE/DGS.
Entre as medidas impostas aos ex-detidos estava a proibição de trabalharem em Luanda, obrigando-os a fixar residência noutras regiões do país.
O jornalista recorda que, apesar da libertação formal, persistia um ambiente de vigilância e suspeita sobre pessoas associadas, directa ou indirectamente, ao 27 de Maio.
Na publicação, Reginaldo Silva relata ainda ter tomado conhecimento recente da história de uma família perseguida pela Segurança de Estado durante a década de 1980, devido a suspeitas de ligação a um alegado sobrevivente ligado aos acontecimentos de 1977 que permanecia escondido.
De acordo com o relato, a perseguição atingiu níveis extremos, tendo as autoridades pressionado o senhorio da habitação onde a família residia a expulsá-la “de um dia para o outro”.
As declarações do jornalista reacendem o debate histórico sobre as consequências políticas e humanas do 27 de Maio de 1977, um dos episódios mais traumáticos da história contemporânea de Angola, marcado por detenções em massa, execuções e perseguições políticas no seio do MPLA.
Nos últimos anos, o tema tem regressado ao espaço público através de testemunhos de sobreviventes, investigações académicas e iniciativas de reconciliação nacional promovidas pelo Estado angolano.
Apesar disso, persistem divergências sobre a dimensão da repressão e sobre o papel desempenhado pelas diferentes lideranças políticas no período que se seguiu aos acontecimentos.

