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Sábado, 11 Abril 2026 21:27

José Gama aponta fragilidades do sistema político angolano e defende alternância no poder

Numa entrevista transmitida a partir de Portugal, o jornalista angolano José Gama traçou um retrato crítico da realidade política e social de Angola, destacando fragilidades estruturais do sistema, o peso dominante do MPLA e os desafios enfrentados pela oposição, nomeadamente a UNITA e a FNLA.

A conversa, conduzida por Victor Hugo, percorreu temas como governação, justiça, eleições, autarquias e o papel da diáspora na formação de uma consciência política mais exigente.

Fundador do portal Clube K, uma das primeiras plataformas digitais angolanas, José Gama explicou que o projecto evoluiu de um espaço cultural para um meio de denúncia política. Segundo o jornalista, a limitação da liberdade de imprensa em Angola levou cidadãos, ONG e partidos da oposição a recorrerem ao portal para divulgar informação fora dos canais tradicionais.

A experiência na diáspora, particularmente em contextos democráticos, é apontada como determinante para uma visão mais crítica. “Promessas básicas continuam a ser repetidas décadas depois da independência”, sublinhou, referindo falhas estruturais persistentes.

Apesar de Angola se definir constitucionalmente como um Estado democrático de direito, Gama considera que as instituições permanecem condicionadas pelo poder político, sobretudo pelo MPLA. Critica, em particular, o papel da Comissão Nacional Eleitoral e do Tribunal Constitucional, sublinhando a sua influência na validação dos resultados eleitorais.

A credibilidade das eleições surge como um dos principais pontos de contestação. Gama critica a dependência tecnológica de empresas como a Indra, responsável pelo apoio técnico em vários processos eleitorais.

Segundo o analista, a questão não reside apenas na empresa, mas na sua contratação recorrente, o que levanta dúvidas sobre a transparência do processo. Acrescenta ainda que a legislação eleitoral limita a contestação, uma vez que apenas os resultados oficiais validados pela CNE têm valor legal, inviabilizando contagens paralelas.

No plano político, Gama traça a evolução do MPLA desde a independência, destacando a liderança de José Eduardo dos Santos e a transição para João Lourenço. Segundo o jornalista, o partido enfrenta atualmente tensões internas e dificuldades na definição de uma sucessão clara.

Um dos episódios mais marcantes é a morte de Fernando da Piedade Dias dos Santos, conhecido como “Nandó”. A ausência de divulgação da segunda autópsia alimentou suspeitas, embora Gama afaste a hipótese de envenenamento, apontando para problemas de saúde. Ainda assim, admite que o contexto político contribui para a desconfiança pública.

O analista considera que o impacto político da morte será limitado, estabelecendo um paralelo com o falecimento de José Eduardo dos Santos, que não alterou significativamente o comportamento eleitoral.

No campo da oposição, Gama destaca a tentativa de renovação da UNITA, sobretudo sob a liderança de Adalberto Costa Júnior. Esta mudança terá contribuído para melhorar a imagem do partido, afastando-o de estigmas associados ao passado.

Ainda assim, o legado de Jonas Savimbi continua central. O jornalista defende que essa ligação é natural, comparando-a com outras referências fundacionais, e critica o que considera ser uma tentativa do MPLA de deslegitimar essa herança. Em paralelo, refere que a FNLA mantém igualmente a valorização da figura do seu líder histórico.

Relativamente às eleições de 2022, Gama sustenta que existem indícios de que a UNITA possa ter tido vantagem em determinadas fases do processo, apesar dos resultados oficiais favorecerem o MPLA. Reitera que as principais fragilidades residem no tratamento das atas eleitorais e no controlo institucional do processo.

Adicionalmente, alerta para novas iniciativas legislativas, como leis relacionadas com a desinformação, que poderão restringir a divulgação de dados eleitorais por parte da oposição.

A ausência de eleições autárquicas é outro ponto crítico. Apesar de promessas desde o período de José Eduardo dos Santos, Angola continua sem implementar o poder local democrático.

Segundo Gama, o adiamento prende-se com o receio de perda de controlo por parte do MPLA. A realização de autarquias poderia reforçar a oposição e dificultar práticas de manipulação eleitoral, além de permitir maior proximidade entre eleitos e cidadãos.

O jornalista critica ainda a ausência de um programa de governo estruturado por parte do MPLA desde 1975. Na sua perspetiva, os documentos apresentados em eleições são genéricos e carecem de planeamento concreto, resultando em descontinuidade nas políticas públicas.

Apesar das limitações do sistema judicial, Gama defende que a oposição deve continuar a recorrer aos tribunais nacionais. A acumulação de processos poderá, a longo prazo, expor fragilidades institucionais.

Admite igualmente a possibilidade de responsabilização internacional de dirigentes angolanos, sobretudo em casos relacionados com alegadas violações de direitos humanos, como os acontecimentos em Cafunfo.

Por fim, o analista alerta para a fragmentação da oposição e para o surgimento de novos partidos, alguns dos quais poderão estar alinhados com interesses do próprio sistema. Essa realidade dificulta a construção de uma alternativa política coesa capaz de desafiar o MPLA.

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