Quinta, 02 de Abril de 2026
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Quinta, 02 Abril 2026 11:04

A oposição em Angola é propriedade do próprio regime

Num contexto político marcado por profundas assimetrias de poder, cresce em Angola a tese de que a própria oposição institucional funciona como uma extensão do regime vigente. A ideia de que “a oposição em Angola é propriedade do próprio regime” surge, assim, como ponto de partida para uma crítica profunda ao sistema político angolano.

Defendida por Domingos da Cruz, esta perspetiva sustenta que a dinâmica entre MPLA e UNITA não representa uma verdadeira alternância democrática, mas antes um sistema fechado em que ambos contribuem para a sua própria perpetuação, deixando o cidadão comum — “o povo é o capim que sofre” — à margem dos benefícios do poder político.

A reflexão surge no âmbito de um manifesto promovido por sectores da sociedade civil angolana, que propõe uma ruptura com o modelo político vigente e apela a uma “nova luta de libertação nacional”. Segundo os seus proponentes, entre os quais Domingos da Cruz, o histórico eleitoral do país evidencia um padrão de eleições fraudulentas e de Simulacro político, onde os processos eleitorais servem mais para legitimar o poder do que para reflectir a vontade popular.

Para os autores do documento, o problema não reside apenas no partido no poder, mas também na actuação da oposição, que acusam de cumplicidade estrutural. Argumentam que tanto o MPLA como a UNITA beneficiam de um sistema sustentado financeiramente pelo Estado, o que compromete a sua independência e capacidade de contestação efectiva. Neste cenário, a oposição deixa de ser uma alternativa real e passa a integrar o próprio mecanismo de manutenção do regime.

A crítica estende-se também às instituições responsáveis pela gestão eleitoral e judicial. A CNE e o CSMJ são apontados como estruturas sem autonomia efectiva, sujeitas a influências políticas que fragilizam a transparência do processo democrático. 

No plano internacional, os críticos sublinham que os padrões eleitorais angolanos divergem das recomendações da SADC e das Nações Unidas, especialmente no que diz respeito à transparência, fiscalização e participação cidadã. Ainda assim, a resposta externa tem sido considerada tímida.

O manifesto defende, por isso, uma mobilização fora dos partidos políticos tradicionais, apelando à construção de uma plataforma cívica autónoma. A proposta assenta na ideia de que a soberania popular deve ser exercida independentemente das estruturas capturadas pelo sistema, rejeitando a lógica do Simulacro Eleitoral de 2027 como via de mudança.

Apesar das críticas contundentes, os seus autores rejeitam soluções baseadas na violência, propondo antes uma transformação sustentada na consciência cívica e na reorganização da sociedade. O objectivo passa por criar condições para uma transição política que inclua reformas institucionais profundas, uma nova arquitectura constitucional e um compromisso efectivo com os direitos humanos.

Num país marcado por décadas de concentração de poder, a discussão sobre o papel da oposição ganha, assim, novos contornos. Entre o cepticismo e a esperança, permanece a questão central: será possível romper com um sistema em que, como afirmam os críticos, a oposição deixou de ser alternativa para se tornar parte integrante do próprio regime?

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Last modified on Quinta, 02 Abril 2026 13:24