Paralelamente, a posição da esquerda portuguesa face a esses pleitos tornou-se tema recorrente de debate político e diplomático, sobretudo quando a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e outros observadores apontaram suspeitas de fraude.
Ao longo dessas décadas, o Partido Socialista (PS) manteve uma relação histórica de proximidade com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido que governa Angola desde a independência. Em setembro de 2025, as duas formações políticas renovaram um protocolo de cooperação, reforçando laços políticos e culturais que remontam ao período pós-colonial.
Durante as eleições angolanas de 2022, o governo português — então liderado pelo PS — reconheceu os resultados oficiais validados pelas instituições angolanas, sublinhando a importância da estabilidade diplomática e dos interesses económicos bilaterais. Para críticos, essa postura representou uma atitude excessivamente complacente perante denúncias de irregularidades; para defensores, tratou-se de pragmatismo diplomático.
O Partido Comunista Português (PCP) mantém uma solidariedade histórica com o MPLA, fruto dos laços estabelecidos durante a luta anticolonial. Tradicionalmente, o partido evita críticas públicas incisivas ao processo eleitoral angolano, classificando muitas denúncias como ingerência externa. Para os críticos, essa postura reforça a ideia de alinhamento ideológico com o regime de Luanda.
Já o Bloco de Esquerda (BE) tem adotado uma posição mais crítica, levantando questões sobre transparência e direitos humanos, tanto no Parlamento Europeu como na Assembleia da República. Ainda assim, os seus opositores consideram que as críticas não se traduziram numa pressão diplomática efetiva por parte do Estado português.
Raízes históricas da proximidade
As relações entre setores da esquerda portuguesa e o MPLA remontam ao período da descolonização. Em 1974, o então Alto-Comissário para Angola, Rosa Coutinho, foi descrito em diversas análises históricas como simpático ao MPLA, movimento liderado por Agostinho Neto. A sua atuação terá favorecido o MPLA em detrimento da FNLA e da UNITA, particularmente na consolidação do controlo de Luanda após o colapso dos Acordos de Alvor.
Fontes históricas referem ainda alegadas ligações familiares entre Rosa Coutinho e Maria Eugénia Neto, esposa de Agostinho Neto, facto frequentemente citado em análises sobre a parcialidade do processo de transição. Contudo, historiadores sublinham que o contexto era marcado por forte divisão interna em Portugal, com disputas entre diferentes fações políticas e militares.
O papel de Mário Soares, enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1974, foi determinante na aceleração da descolonização. Ainda assim, o reconhecimento formal do governo do MPLA por Portugal só ocorreu em fevereiro de 1976, após a mudança do equilíbrio político interno resultante dos acontecimentos de 25 de novembro de 1975.
Conivência ou pragmatismo?
Com a vitória da direita em Portugal e a liderança do governo por Luís Montenegro, abre-se um novo capítulo nas relações bilaterais. Analistas políticos questionam se a mudança de ciclo governativo poderá traduzir-se numa postura mais exigente face às denúncias de irregularidades eleitorais em Angola ou se prevalecerá a continuidade diplomática ditada por interesses estratégicos.
O debate permanece aberto. Entre solidariedades históricas, realpolitik diplomática e exigências democráticas, a posição da esquerda portuguesa face às eleições angolanas continua a ser escrutinada à luz das denúncias de fraude e das expectativas de coerência democrática no espaço lusófono.
Por Luís Carlos

