Terça, 25 de Junho de 2024
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Quinta, 07 Março 2024 13:39

João Lourenço e o núcleo do poder em Angola

No período de governação de José Eduardo dos Santos (JES), estava bem claro que os generais Hélder Vieira Dias Júnior "Kopelipa", Leopoldino Fragoso do Nascimento "Dino" e António José Maria "Zé Maria" faziam parte do seu núcleo restrito e de confiança, pois nada lhe chegava sem que fosse filtrado e aprovado por esses três homens.

Com a chegada ao poder do Presidente João Lourenço, praticamente deixou de existir uma primeira linha e ficou indefinido sobre quem depois dele tem poder. É algo que o também Chefe de Estado nunca procurou clarificar, mas o seu "modus operandi" deixa escapar e, pouco a pouco, vai-se percebendo quem são os novos donos do poder em Angola.

Edeltrudes Gaspar Costa, o "Nandinho" do Bairro Popular que se tornou o "Kopelipa" no Executivo de João Lourenço (JLO), foi ministro de Estado e chefe da Casa Civil do Presidente JES e é, actualmente, director de gabinete do actual Chefe de Estado. Ninguém chega a JLO sem passar por ele ou sem a sua aprovação. É o verdadeiro "filtro" antes de qualquer aproximação/abordagem ao PR.

Se Nito Cunha (antigo director de gabinete de JES) era "low-profile", mais estático e gostava de actuar em baixa visibilidade, Edeltrudes Costa tem novas dinâmicas, marca presença e vinca o seu espaço nas mais importantes deslocações de JLO pelo País e pelo exterior. Faz questão de mostrar que está por perto e que controla tudo à volta do Chefe. É o mais influente dos seus colaboradores, tem poder de facto e não hesita em exercê-lo. Os membros do Executivo sabem disso, e a maior parte deles teme-o.

O Palácio da Cidade Alta é o centro do poder em Angola. Edeltrudes Costa é a última linha que controla todos os poderes em volta de JLO, não se limitando a ser um mero chefe de gabinete, organizador de agendas ou facilitador de audiências. Ele personifica o poder que vem logo a seguir a João Lourenço, é o fiel depositário dos principais segredos de Estado e é, para JLO, o que Kopelipa era para JES.

Fernando Garcia Miala, antigo chefe do Serviço de Inteligência Externa (SIE), foi recuperado por João Lourenço e renasceu como fénix das cinzas para ocupar o cargo de director-geral do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SINSE), a nossa secreta interna. Os Serviços de Inteligência são estruturas fundamentais na estratégia de governação e de exercício de poder de João Lourenço. A escolha de Miala para o actual cargo foi criteriosa e bastante objectiva. João Lourenço defende que os Serviços de Inteligência são a primeira linha de defesa e de segurança de qualquer Estado.

O combate à corrupção assumido pessoalmente por João Lourenço e o desmantelamento dos chamados "Marimbondos" passam por ter uma secreta interna forte, actuante, com grande capacidade de análise, antecipação e intervenção. Depois de ter visto a sua missão no SIE interrompida em 2007, tendo sido condenado a quatro anos de prisão por insubordinação, Miala viu, na escolha de João Lourenço, a oportunidade de mostrar, mais uma vez, a sua lealdade à Pátria e de moralizar/disciplinar o sistema.(...)

Eugénio César Laborinho, actual ministro do Interior, é outro elemento da "troika" dos poderosos e mais próximos ao Presidente da República. O NJ sabe que, entre Eugénio Laborinho e João Lourenço, existe uma relação de amizade e de cumplicidade, sendo o governante uma das pessoas de confiança do também Chefe de Estado.

O Ministério do Interior é uma estrutura muito complexa, extensa e que exige grande capacidade de organização e disciplina, sendo também uma estrutura que enfrenta muitos problemas de corrupção, nepotismo, de recursos técnicos e logísticos, de remuneração, promoção e de capacitação dos seus quadros.

O episódio da exoneração do antigo comandante-geral da Polícia Nacional, comissário Paulo de Almeida, e a entrevista concedida ao NJ no início de 2023 levantaram a velha questão das guerras de competências entre o ministro do Interior e os comandantes-gerais da corporação. Labo- rinho conseguiu gerir a crise e, recente- mente, por altura do aniversário da Polícia Nacional, acabou homenageando os antigos comandantes e reconhecer o seu contributo para a instituição.

É o homem providencial de João Lourenço, à frente de uma instituição importante para a protecção e manutenção de todo o aparelho do Estado e um elemento fundamental para prevenir distúrbios, sabotagens e chamadas acções hostis e subversivas contra o regime. Para além de resistências e forças de bloqueio internas, Laborinho vive uma relação 'agridoce' com um dos membros da 'troika' dos poderosos, Fernando Garcia Miala.

Há muito que o SINSE de Miala quer voltar a ter o controlo do Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), alegando a necessidade de maior rigor, disciplina e controlo interno e externo. Eugénio Laborinho sabe disso, mas jamais abrirá mão de uma instituição tão importante do ponto de vista estratégico, orgânico, social e financeiro para o seu ministério. A questão das competências de investigação e actuação entre SINSE e SIC (Serviço de Investigação Criminal) abre, também, algumas frentes entre ambos. Vão trabalhando, vão-se suportando em nome de dois interesses comuns: A Pátria e João Lourenço.

Francisco Pereira Furtado, actual chefe da Casa de Segurança do PR, chegou ao cargo após a 'Operação Caranguejo', em substituição do general Pedro Sebastião. Nas funções desde finais de Maio de 2021, recebeu orientações de João Lourenço para 'arrumar a casa', tendo poderes para uma verdadeira reestruturação da instituição. Consta ao NJ que Fernando Garcia Miala terá sido uma das pessoas a indicar o seu nome para o cargo, fruto de uma relação que mantém ao tempo que esse era o chefe do SIE. Com 65 anos, dos quais 45 de carreira militar, o antigo chefe de Estado- -Maior das FAA (2006-2010) é um dos homens mais próximos e de confiança de João Lourenço.

A par da missão de limpar e organizar uma instituição que, apesar de ser de segurança ao PR, mas que esteve bastante exposta e frágil face aos esquemas de corrupção instalados, Furtado chefiou a Comissão Multissectorial para a Prevenção e Combate à Covid-19, um verdadeiro teste de fogo às suas capacidades de disciplina, organização e liderança. É, actualmente, o rosto da Lei de Segurança Nacional que tem sido discutida na Assembleia Nacio- nal e alvo de vários debates a nível da comunicação social e das redes sociais.

Luís Nunes é o empresário emprestado à política, na qual entra a convite do próprio João Lourenço, para exercer o cargo de go- vernador da Huíla (2018-2021), e é, desde 2021, o governador de Benguela. Foi a ele que o PR confiou a missão de materializar a pro- messa eleitoral de se transformar a cidade de Benguela na nova Califórnia em África.

A OMATAPALO, holding de Luís Nunes, passou a estar associada com regularidade aos ajustes directos aprovados por João Lourenço. Mas é também o inquilino do Palácio da Praia Morena que, por via das suas empresas, suas ligações e capital financeiro, vai quebrando muitos galhos ao seu compadre do Palácio da Cidade Alta, permitindo que muitas obras e projectos se efectivem. É-lhe reconhecida competência, resiliência, visão estratégica e organização. Certo é que um dos poucos por cá que já entraram para a política milionários e com sentido de serviço público. Luís Nunese João Lourenço são 'Best Friends Forever' (BFF). O governador é, para JLo, um pouco daquilo que Roberto Carlos cantou: "o amigo certo das horas incertas".

Joel Leonardo chegou ao cargo de presidente do Tribunal Supremo em Outubro de 2019, por nomeação do Presidente da República, resultante de o cargo ter ficado vago na sequência da renúncia do então juiz-presidente, Rui Ferreira. Nos últimos tempos, o espaço mediático tradicional e virtual foi invadido por várias denúncias contra juiz Joel Leonardo, muito à semelhança de Rui Ferreira em 2018 e Exalgina Gamboa, antiga presidente do Tribunal de Contas, com denúncias que começaram pelas redes sociais e depois foram retomadas pelos órgãos tradicionais.

Contra ventos e tempestades, Joel Leonardo mantém-se de 'pedra e cal' no cargo. Há uma ideia generalizada junto do sistema judicial e da opinião pública de que, para além de amigo é também protegido de João Lourenço. NJ

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