Quarta, 08 de Abril de 2020
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Quarta, 25 Março 2020 21:14

Consulado de Portugal em Luanda acusado de sujeitar portugueses “a condições desumanas”

Voos de regresso a Portugal estão a gerar confusão no país. Crescem as críticas ao consulado e à TAP

Os voos para fazer regressar cidadãos nacionais de Angola por causa da pandemia da covid-19 estão a motivar fortes críticas da comunidade portuguesa ao Consulado Geral de Portugal no país e à TAP. Esta quarta-feira, numa carta enviada a várias entidades, incluindo o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, um empresário português que vive em Angola há mais de 15 anos denuncia “as inúmeras condições desumanas” a que a comunidade portuguesa no país tem sido sujeita “pelo Consulado Geral de Portugal em Angola”.

“Ao invés de proteger os seus cidadãos, [o consulado] insta-os desumanamente a sujeitarem-se a terem de saber se são escolhidos por via de uma lista, lida por vigilantes em plena rua pública [à porta das instalações da TAP em Luanda], no estrangeiro, sujeitando a população portuguesa a ter de ser amontoar e ser contaminada”, escreve num email, que motivou respostas de vários portugueses a residir em Angola, descrevendo o caos em que se tornou o processo de conseguir lugar num voo para Portugal.

De acordo com o relato, a que o Expresso teve acesso, “centenas de pessoas aguardaram amontoadas e desprotegidas” durante horas até saberem que não conseguiriam embarcar no voo que a TAP realizou para Lisboa na madrugada desta quarta-feira. Segundo o empresário, “apenas 5% das pessoas que constavam na lista” [de cidadãos portugueses que desejavam regressar a Portugal] conseguiram entrar nas instalações da TAP para formalizar a reserva da sua passagem.

“Os despojados 95% dos cidadãos, a mando do consulado, depararam-se que ao estar a partir das 7 da manhã, para garantir uma senha, só dada pelas 9 horas, foi-lhes dito pelas 12 horas que a senha já não servia de nada, não iriam ser atendidos. Depois de arriscarem a vida a poderem ser contagiados pela covid-19, foi este o tratamento que tiveram”, lê-se na missiva.

O cidadão português acusa os critérios usados para a elaboração das listas de prioridades para os voos de serem “muito duvidosos”. “Constatamos claras evidências de tráfico de influência para garantir prioridade”, afirma, garantindo que os portugueses em Angola sentem “medo” do consulado, estando intimidados a criticar publicamente, por medo de represálias, devido ao trafico de influências, cunhas, amiguismo constatado, etc.”.

Contatado por email pelo Expresso, o empresário, que pediu anonimato por temer "represálias das instituições referidas", prosseguiu com as críticas: "O consulado não tem estrutura de atendimento minimamente razoável. Quase nunca atende [o telefone]. A TAP também nunca atende. Cria um enorme desespero e incerteza na população vítima desta situação. Nós, portugueses, nunca pensámos que a nossa estrutura diplomática fosse tão ineficiente, que o Governo português estivesse tão mal, nada fez por uma das maiores e mais corajosas comunidades de emigrantes do mundo português. Esta situação e [estes] episódios vão ficar na história de forma extremamente traumática".

Tudo isto leva-o a afirmar que os portugueses em Angola "estão profundamente indignados com o comportamento" do seu governo. "É uma enorme humilhação do nosso governo apenas ter conseguido enviar um única avião da TAP. Até a Deloitte conseguiu fazer um charter para cuidar dos seus funcionários. Todos os outros estrangeiros, companhias petrolíferas, fizeram os seus charters e, confortavelmente e a tempo, repatriaram as suas comunidades. Nós estamos aqui retidos a ser gozados e tratados como animais pela nosso consulado. É dramático, mas é a verdade."

DOIS VOOS NO SÁBADO

Contatada pelo “Expresso”, a TAP, através do seu gabinete de comunicação, revelou que está previsto novo voo para trazer portugueses de Angola no sábado, a que se junta um voo charter que será operado pela companhia EuroAtlantic. O voo da TAP transportará clientes “que já tinham voo marcado e que decidiram antecipar o seu regresso” mas não se encontra ainda cheio, pelo que a companhia vai colocar os restantes lugares à venda no seu site “assim que receber autorização [do governo de Angola] para operar” a ligação.

A companhia aérea nacional responde ainda às críticas de cidadãos portugueses em Angola relativamente ao facto de o voo da madrugada desta quarta-feira ter regressado a Lisboa, via Faro, com muitos lugares disponíveis: “Foram 61 pessoas que tinham bilhete e não apareceram na hora de embarque", esclarece.

O Expresso pediu também esclarecimentos ao Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre esta situação, mas não obteve resposta. EXPRESSO 

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