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Sábado, 07 Março 2015 08:42

Espanha versus Angola. Quem vai criar o maior banco privado português?

O que têm em comum Espanha e Angola? O BPI. O banco liderado por Fernando Ulrich é disputado pelos espanhóis do CaixaBank, que ainda poderão subir a parada depois da OPA ter sido chumbada, e pela empresária angolana Isabel dos Santos, ao fazer renascer a velha proposta de fusão com o BCP.

Como se de um jogo de xadrez se tratasse, a intenção de criar o maior banco privado português surge como o principal argumento usado pelos dois adversários para conseguir o xeque-mate. Mas entre as duas propostas qual irá, realmente, criar o maior gigante na banca nacional? E isso será positivo para o sector e para o país?

Para responder à primeira questão nada melhor do que ver os números. Segundo os dados mais recentes, relativos ao fim de 2014, tanto a OPA do CaixaBank - que levaria à tentativa de compra do Novo Banco pelo BPI -, como a fusão entre BPI e BCP resultariam no nascimento do maior banco português (ver infografia). Quer em ativos, crédito, trabalhadores ou agências, o resultado de qualquer uma das operações - fusão BCP+BPI e compra do Novo Banco pelo BPI - superaria o líder atual: a CGD. No entanto, de acordo com os mesmos dados e, sobretudo no que respeita ao volume dos ativos, a diferença entre BCP+BPI e BPI+Novo Banco, não é estrondosa. Por outro lado o futuro banco iria, em qualquer um dos cenários, beneficiar de uma presença geográfica mais fortalecida, mas a criação de um novo gigante iria resultar, nos dois casos, numa redução considerável do número de trabalhadores. Certa parece, para já, a alteração na atual relação de forças entre angolanos e espanhóis.

Assumindo a queda da OPA - La Caixa diz que não paga mais e Isabel dos Santos diz que assim não desbloqueia os estatutos do BPI - e no pressuposto de que a fusão entre BCP e BPI avança, a nova instituição passaria a ser dominada pelos angolanos da Santoro, Sonangol e Interoceânico, que juntos controlariam mais de 20% do capital, enquanto os espanhóis seriam obrigados a ceder a predominância que pretendem garantir no BPI com a OPA. Mas, como diz o CaixaBank, o jogo ainda agora começou.

E será a fusão BCP+BPI a melhor solução? Sim, pelo menos para os economistas ouvidos pelo Dinheiro Vivo, que defendem que a fusão permitiria a existência de concorrência no sector. Isto, partido do pressuposto de que o Novo Banco seria adquirido por outra instituição que não o BPI. Na opinião do ex-ministro das Finanças, Eduardo Catroga, "em termos de lógica do sistema financeiro, faria sentido o casamento entre BPI e BCP, que teria uma estrutura acionista diversificada". O economista adianta que a instituição que resultaria da fusão não concorreria à compra do Novo Banco, pelo que a manutenção deste banco autónomo proporcionaria mais concorrência. Já Miguel Beleza alerta para o facto de a fusão entre BCP e BPI poder "reduzir a concorrência". Segundo este antigo ministro das Finanças, a situação não seria dramática, pois "existem os restantes bancos, produtos e serviços". E nem o facto de o BPI poder vir a passar totalmente para mãos estrangeiras parece afligir os especialistas, que relembram a história da sua estrutura acionista. "A verdade é que os bancos - BCP e BPI - já são estrangeiros há muito tempo. No caso do BPI, a gestão é nacional, mas sempre teve uma troika na sua estrutura acionista", argumenta o economista João Cantiga Esteves. Já Miguel Beleza diz que "o BPI já não é português". Mas acrescenta: "Isso não me causa aflição desde que seja bem gerido, com prudência, rigor e transparência". Também o economista João Duque diz estar "mais inclinado para a fusão" e gostar "da ideia de um banco português e lusófono". Na sua opinião, seria preferível "que houvesse outra alternativa que permitisse ao Novo Banco ser adquirido por outra entidade, para não diminuir o número de players em Portugal, para haver mercado e concorrência", afirma.

Por Tiago Figueiredo Silva

Dinheiro Vivo

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