Em entrevista à Lusa, no âmbito das celebrações dos 450 anos da Cidade de Luanda, que se assinalam no domingo, Maria João Teles Grilo manifestou-se “bastante preocupada” com a atual situação da capital angolana.
Segundo a arquiteta angolana, a falta de rede de esgotos, de infraestruturas, saneamento, água e luz agudiza a precariedade da maioria dos habitantes de Luanda, sobretudo nos bairros e musseques, onde moradores “estão a morrer por falta de condições de vida”.
“É que não podemos chamar de cidade a um aglomerado urbano com uma extensão imensa onde neste momento 70% dessa população não tem uma coisa absolutamente elementar que é água, luz, esgoto e infraestruturas, isto é muito grave, nós estamos numa pobreza imensa”, afirmou a especialista.
Com vários estudos elaborados sobre Luanda, sua periferia e suas gentes, a investigadora considerou que a população da capital vive num “estado de miséria e abandono assustador” e lamentou a falta de respostas públicas.
“Não vislumbro em nenhuma das declarações do Governo, nenhuma preocupação com a infraestrutura sanitária: sem isso não há cidade, não é a parte privada que faz cidade, não são as habitações que fazem cidade”, frisou.
A definição de cidade, argumentou a arquiteta, são as componentes públicas: “São todos os lugares onde toda a gente, toda a população pode entrar: um cinema, teatro, jardim, restaurante, um clube desportivo, a escola, um centro de saúde, isso é que faz cidade”.
“O que define cidade são os equipamentos públicos”, reforçou, referindo que à exceção da cidade do tempo colonial, no centro de Luanda, “onde insistem mexer e destruir”, uma extensão razoável ao sul de Luanda e alguns bairros de urbanização, “o resto está completamente abandonado”.
Maria João Teles Grilo, que diz conhecer muito bem os bairros de Luanda, insistiu que a maior parte da população luandense “vive no abandono [das autoridades] e em condição desumana”, exortando os governantes a olharem para este quadro com “seriedade”.
Teles defendeu investimento urgente nas infraestruturas para garantir conforto e bem-estar aos quase 10 milhões de habitantes e para a salvaguarda da sua saúde mental e física.
“Nós precisamos, urgentemente, de investir na infraestrutura, porque sem isso vamos morrer. Eu não estou a exagerar, as pessoas estão a morrer, estão a morrer de fome, mas também estão a morrer de doença, falta de condições de vida”, lamentou.
A arquiteta natural do Lubango, cujo pai fez parte da equipa que projetou a estrada da Serra da Leba, uma das sete maravilhas de Angola, também falou com preocupação sobre os atuais edifícios altos construídos e uns em construção, sobretudo, na Baía de Luanda.
Para a investigadora, membro da União Internacional de Arquitetos e com vários estudos e projetos em Angola e Portugal, os prédios altos da cidade de Luanda são técnica e ambientalmente “um desastre”.
Considerou que os edifícios muito altos que ocupam a Baía de Luanda – zona turística e muito visita pelos citadinos – “sofrem de duas desinteligências”, primeiro por serem feitos de vidro para uma cidade “cujo clima tem 30 graus de temperatura média e uma humidade de pelo menos 80%”. Um vidro exposto “tem de ser sombreado, ou seja, tem de ter palas de assombramento, o sol não pode bater diretamente, portanto, é um erro”.
Criticou também a importação de arquiteturas, sem a participação ou parecer dos arquitetos angolanos, afirmando que a cidade de Luanda e o país enfrentam um drama de importação de projetos de países que nada têm a ver com a geografia, o clima e a cultura angolanos. “É aquela coisa que brilha, mas é um horror, como o diz o povo de uma maneira muito inteligente: são micro-ondas (…) são arquiteturas do dinheiro, são arquiteturas anónimas”, criticou.
Um país independente há 50 anos “tem de construir identidades, mas é gravíssimo uma pessoa ter de identificar uma coisa que não é nada, os blocos de vidro expostos não significam nada”, disse.
Doutorada em urbanismo com a abordagens sobre o “Léxico do espaço público da cidade informal em Luanda”, Maria João Teles Grilo apontou ainda a componente climática como a segunda “desinteligência”, referindo que as cortinas de prédios altos bloqueiam as passagens do vento e a circulação do ar da cidade.
A partir do momento que “estamos a bloquear” a circulação do ar da cidade “estamos a fazer com que a cidade não respire e que aumente as temperaturas num clima que já é quente em si, é desastroso”, deplorou, sugerindo um escalonamento na construção de prédios.
“Porque não um escalonamento? De prédios mais baixos e subindo, sobretudo, para que toda a gente veja a Baía e que a cidade tem de respirar, ao invés de bloquear o ar e a vista da Baía. É errado técnica e climaticamente”, notou.
Fez críticas às autoridades porque, no seu entender, não se está a pensar cidade: “Não estamos a pensar cidade, as coisas são feitas como cogumelos, completamente à toa, sem se pensar em que arquitetura devemos ter, como devemos estruturar a cidade para o bem-estar de toda a gente”. A arquiteta de 65 anos disse ainda ser fundamental e urgente alertar sobre as “consequências gravíssimas” de falta de infraestruturas na cidade.
“A maioria da cidade é hoje abandono, miséria, falta de infraestruturas, falta de condições, como é que se pode não pensar nas pessoas? Como é que não se pode dar o mínimo de dignidade às pessoas?”, concluiu, referindo tratar-se igualmente do “grito” de uma cidadã.

