Quinta, 30 de Abril de 2026
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Quinta, 30 Abril 2026 17:53

Venâncio defende irreversibilidade das múltiplas candidaturas e apela à neutralidade de João Lourenço

O engenheiro António Francisco Venâncio, pré-candidato à presidência do MPLA, manifestou confiança na transparência do processo interno que culminará no IX Congresso Ordinário do partido, agendado para os dias 9 e 10 de Dezembro, defendendo que a organização vive um momento “histórico” de transição, marcado pela abertura a múltiplas candidaturas.

Em entrevista à Rádio Essencial, conduzida pelo jornalista Edmundo Pimentel, Venâncio considerou que a deliberação do Comité Central de 12 de Março de 2026, que encoraja a pluralidade de candidaturas, constitui um ponto de viragem. “Já não há recuo. É um processo irreversível”, afirmou, sublinhando que, pela primeira vez em décadas, os militantes poderão escolher entre diferentes projectos de liderança.

O também engenheiro reconheceu a existência de “atritos” no arranque do processo, mas desvalorizou as críticas sobre alegados bloqueios, classificando-os como “questões logísticas ou administrativas”, passíveis de superação. Segundo explicou, a subcomissão de candidaturas já disponibilizou os formulários e orientações necessárias, estando a recolha de assinaturas — um mínimo de cinco mil — em curso nas províncias.

“O MPLA mudou”

Questionado sobre o que distingue o actual processo de tentativas anteriores, nomeadamente a de 2021, Venâncio foi categórico: “O MPLA mudou”. Na sua perspectiva, há hoje maior consciência interna sobre o cumprimento dos estatutos e uma crescente “coragem” dos militantes para exigir regras claras e participação efectiva.

O pré-candidato afirmou ainda que os primeiros secretários provinciais estão obrigados a facilitar o processo, não podendo criar obstáculos às candidaturas, sob pena de violarem normas estatutárias. “Não têm vantagem nenhuma em impedir candidaturas. Antes pelo contrário, comprometem a sua idoneidade política”, sustentou.

Apesar de reconhecer falhas no passado — incluindo a sua própria tentativa frustrada de candidatura — Venâncio defende que esse processo teve impacto político, ao incentivar os militantes a conhecerem melhor os seus direitos. “Do ponto de vista material não resultou, mas do ponto de vista político resultou”, disse.

Críticas ao culto de personalidade

Durante a entrevista, o pré-candidato criticou práticas que associam excessivamente a liderança aos símbolos do partido, defendendo a separação entre figuras individuais e a identidade histórica do MPLA. “Os símbolos são permanentes, o líder é temporário”, afirmou, alertando contra o que considera resquícios de culto de personalidade.

Venâncio defendeu igualmente que o próximo líder deve emergir de um processo competitivo, com apresentação de programas e contacto directo com as bases, algo que, segundo disse, “nunca aconteceu” de forma plena no partido.

Posição sobre João Lourenço

Sobre uma eventual recandidatura do actual presidente do MPLA, João Lourenço, Venâncio reconheceu tratar-se de um direito estatutário, mas defendeu que o chefe de Estado deveria adoptar uma postura de neutralidade. “Deve ser imparcial e permitir que os candidatos concorram entre si”, afirmou, acrescentando que tal atitude reforçaria o seu legado político.

O pré-candidato mostrou-se crítico em relação às alterações estatutárias de 2024, que abriram caminho à recandidatura de João Lourenço, considerando que essas mudanças fragilizam a estabilidade interna e a previsibilidade institucional do partido.

Venâncio relativizou ainda as denúncias de alegados bloqueios à recolha de assinaturas, como as avançadas por outros concorrentes, reiterando que se tratam de “questões administrativas ou logísticas” e não políticas. Garantiu também que já dispõe de toda a documentação necessária e que o processo decorre em várias províncias.

Reconheceu que a sua tentativa anterior de candidatura não teve sucesso formal, mas defendeu que produziu resultados políticos relevantes. “Do ponto de vista político e ideológico, resultou, porque devolvemos os estatutos aos militantes”, afirmou, considerando que esse processo contribuiu para a actual abertura interna.

Sobre o ambiente no partido, admitiu resistências por parte de sectores habituados ao “centralismo democrático” e à elaboração de listas fechadas, mas sustentou que o MPLA está a evoluir para uma cultura mais participativa. “Estamos a construir um novo modelo democrático, com mais coragem e respeito pelos estatutos”, disse.

O engenheiro reiterou que os primeiros secretários provinciais devem assegurar condições equitativas para todos os candidatos, alertando que eventuais obstruções poderão configurar violações estatutárias, embora se mostre confiante num processo normal.

Apesar das reservas, reafirmou a convicção de que o processo em curso representa um avanço significativo. “Já cumprimos 70% do objectivo, que era garantir múltiplas candidaturas. O restante dependerá da escolha dos militantes”, concluiu.

O IX Congresso Ordinário do MPLA deverá, assim, marcar uma nova fase na história do partido, com a expectativa de um debate interno mais plural e a eventual eleição de uma nova liderança.

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Last modified on Quinta, 30 Abril 2026 18:22