Sábado, 24 de Outubro de 2020
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Terça, 08 Setembro 2020 14:41

Manuel Vicente e os generais "tidos" como Santos da Casa numa Justiça selectiva

Passaram-se pouco mais de 3 semanas desde que José Filomeno "Zenu" dos Santos foi condenado a 5 anos de prisão. O juiz deu como provado que o filho do ex-presidente José Eduardo dos Santos foi cúmplice num esquema para retirar USD 500 milhões do país.

O dinheiro - entretanto recuperado - destinava-se, segundo a defesa, a capitalizar um fundo em Londres, que angararia mais capital para investimentos em Angola.

Entretanto, Isabel dos Santos deverá este mês sair do conselho de administração da Unitel, anterior sede do seu poder. Aquele que até à chegada ao poder de João Lourenço era o mais poderoso grupo empresarial angolano - com activos estratégicos em Angola e Portugal, desde a banca à energia - é agora um navio à deriva.

Convencionou-se dizer que a Justiça, com Lourenço, é selectiva. Isto é, que vai atrás dos adversários políticos de Lourenço. Aponta-se para os casos de Manuel Vicente, "Kopelipa" e "Dino", seguramente dos que maior fortuna acumularam durante o consulado de José Eduardo, que não obstante terem entregue alguns activos, não sofreram nada do que se pareça com o que aconteceu a "Zenu" e Isabel.

Isso é uma evidência. Mas ignora um aspecto fundamental do problema: "Zenu" e Isabel sempre foram rejeitados no seio do MPLA. O partido sempre resistiu às tentativas do pai para os impor. À chegada de Lourenço à cidade alta não tinham, portanto, a protecção do partido - como têm outros. Lembro-me de ter ouvido isso de um responsável do MPLA em 2017, em jeito de aviso. O que se seguiu, já sabemos.

No meio disto tudo, o Ministério Público suíço congelou em contas naquele país USD 900 milhões que terão sido desviados da Sonangol por Carlos São Vicente, o "braço" empresarial da família de Agostinho Neto, de quem é genro. Suspeita-se que milhares de milhões de dólares terão sido retirados do país por São Vicente, que durante décadas beneficiou de um altamente lucrativo esquema de venda de seguros à petrolífera.

No África Monitor, seguimos há vários anos São Vicente e a seguradora AAA. É, sem dúvida, um bom exemplo da espoliação brutal da Sonangol e de outras empresas do Estado. Como Isabel dos Santos, Manuel Vicente e tantos outros.

Às vezes é bom recuar, para ganhar perspectiva. Desde os anos 1990, várias auditorias à Sonangol foram revelando o desaparecimento de dezenas de milhares de milhões de dólares dos ses cofres. Algumas estimativas apontam para um saque superior a USD 500 mil milhões. Angola foi apresentando justificações contabilísticas, e a comunidade internacional foi condescendendo.

É um facto que esse saque se deu sobretudo na presidência de José Eduardo. Mas nele participaram muitas centenas de altos dirigentes do partido e do Governo, muitos dos quais estão ainda hoje no topo da hierarquia do MPLA. Aliás, recuando mais, vemos que o saque terá começado ainda no tempo de Agostinho Neto. Na sua origem, o massacre do 27 de Maio de 1977 foi um protesto de intelectuais do MPLA para exigir uma "limpeza" do Governo, perante uma sucessão de casos de incompetência e corrupção. O resto está nos livros: ameaçado, Neto mandou para a rua as tropas, juntamente com soldados cubanos.

No massacre, 30 mil pessoas terão morrido, segundo a Amnistia Internacional. Tenho amigos que fugiram ao massacre, que ainda recordam com horror. Os crimes ficaram impunes. Os seus mandantes também. AM

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