De acordo com o economista, com base em dados oficiais, Angola dispõe de uma capacidade instalada de produção de cimento na ordem dos oito milhões de toneladas por ano, enquanto a previsão da procura interna para este ano ronda quatro milhões de toneladas. Ou seja, o país tem potencial para produzir o dobro do que consome
Foi com base nesse desequilíbrio que, há alguns anos, o Executivo decidiu proibir a importação de cimento, justificando a medida com a necessidade de proteger a indústria nacional e garantir o escoamento da produção interna. Contudo, em 2026, o Governo lançou um concurso público para a importação de cimento — decisão que está a gerar controvérsia e questionamentos, segundo o professor universitário.
“Como é que um país com capacidade instalada de oito milhões de toneladas por ano e uma procura interna de quatro milhões precisa de importar cimento?”, questiona Carlos Rosado de Carvalho. Embora se declare contra proibições de importação, independentemente do nível de consumo interno, o economista sublinha a incoerência da política adoptada: primeiro proíbe-se, depois abre-se um concurso extraordinário para importar.
Gestão das cimenteiras públicas em causa
Uma possível explicação poderá estar na situação de algumas unidades industriais do sector. Três ou quatro cimenteiras construídas com financiamento público terão, no âmbito do combate à corrupção, passado para a esfera do Estado.
Segundo Carlos Rosado de Carvalho, poderá existir ineficiência ou dificuldades de gestão nessas unidades agora sob controlo público, o que comprometeria a sua capacidade de responder de forma efectiva à procura interna, apesar da elevada capacidade instalada.
Concurso com 18 concorrentes e um único vencedor
O concurso para a importação de cimento em 2026 contou, segundo informações oficiais, com 18 concorrentes. No entanto, apenas uma empresa foi seleccionada, alegadamente por ser a única que cumpria todos os critérios estabelecidos no caderno de encargos.
A empresa vencedora pertence ao universo empresarial ligado ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido que governa o país há 50 anos. Trata-se de uma sociedade integrada no grupo económico encabeçado pela GEFI.
O facto de a única empresa considerada apta ser precisamente uma ligada ao partido no poder levanta dúvidas e reacende o debate sobre transparência, concorrência e conflitos de interesse na contratação pública.
Proibição e excepção: um padrão recorrente?
O argumento oficial para a proibição das importações foi a protecção das empresas nacionais. No entanto, críticos apontam que, em vários sectores da economia angolana, tem sido recorrente a prática de proibir importações para, posteriormente, abrir excepções através de concursos públicos.
E, frequentemente, os vencedores desses concursos são empresas ligadas ao sistema político.
No caso do cimento, a sequência é clara: proíbe-se a importação para proteger a indústria nacional; abre-se uma excepção extraordinária; e a autorização acaba por ser atribuída a uma empresa ligada ao MPLA.
A polémica promete intensificar o debate sobre a coerência das políticas económicas e o papel do Estado na regulação de sectores estratégicos, num contexto em que a confiança dos agentes económicos depende cada vez mais de regras claras, previsíveis e transparentes.

