Terça, 24 de Novembro de 2020
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Segunda, 29 Junho 2020 17:50

Bispos angolanos da IURD contestatários queixam-se de perseguição pela ala brasileira

Bispos angolanos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) acusaram hoje a ala brasileira da instituição de contratar elementos para perseguir os pastores nacionais, uma situação que já foi participada à polícia, disse hoje à agência Lusa o porta-voz do grupo.

Segundo Silva Matias, representante do grupo que rejeita ser classificado como dissidente, reafirmando-se membro da igreja, no domingo alguns pastores foram perseguidos por viaturas em alta velocidade com viaturas, mas “conseguiram escapar”.

“Já demos a participação à polícia, que deu cobertura com um grupo para escoltar”, disse Silva Mateus, porta-voz da ala reformadora da IURD, reiterando que “os pastores que deram início a esse movimento, no dia 22 (de junho) estão a sofrer ameaças por parte da ala brasileira”.

Segundo Silva Matias, as provocações têm estado a vir da ala brasileira, lembrando que os pastores andam desarmados, mas na quinta-feira passada, um grupo de 16 homens armados, sob alegada orientação do bispo brasileiro Honorilton Gonçalves, invadiu uma catedral “para atentar contra a vida dos pastores angolanos”.

“O objetivo era abater um dos pastores para ver se apelam ao Governo para tentar favorecer a eles, mas graças a Deus, nós como temos colocado as questões todas à polícia, temos dado participação, a polícia tem estado a acompanhar, o ato não se consumou”, disse.

O pastor disse que as instalações contam com a proteção não só da polícia, mas também de uma nova empresa de segurança requisitada.

Silva Matias elogiou o trabalho da polícia, realçando o papel das autoridades nas situações em que é solicitada, como a da tentativa de “uma pequena manifestação que a gestão brasileira quis organizar ontem (domingo) na frente (catedral) do Maculusso”, coagindo membros para criar conflitos com os pastores”.

“Sabendo que estamos a viver uma fase que ainda vigora o estado de calamidade e esse tipo de movimentos não são permitidas, acionamos a polícia, e a polícia está a prestar um serviço, uma assistência muito boa, veio de imediato e conseguiu remover as pessoas daqui”, frisou.

“A polícia nesse momento tem dado um suporte fundamental, tem apaziguado, controlado os dois lados, para que as coisas não cheguem ao extremo”, acrescentou.

De acordo com o porta-voz dos pastores angolanos, os bispos brasileiros não se conformam que cerca de 370 dos 430 pastores angolanos fazem parte desre movimento de reforma. Por isso, estão “a querer usar a força e coagindo membros, que, infelizmente, não dominam situações internas da igreja, para vir criar tumulto com os nacionais”.

“Mas nós, sob orientação da polícia, não estamos a chocar com os nossos irmãos angolanos, porque os membros não dominam o que acontece no sistema interno da igreja, nunca a nenhum membro foi justificado como é que as coisas acontecem, os membros só conhecem o trabalho do altar (…), então alguns são manipulados, não dominam a informação que nós dominamos”, sublinhou.

Há 27 anos na igreja, os pastores angolanos dizem ter “engolido” muita coisa, mas que agora chegou ao limite.

A decisão de tomada rápida dos templos, informou Silva Matias, deveu-se ao facto de a gestão brasileira pretender vender os edifícios, construídos com os recursos dos membros angolanos.

“Nós descobrimos, e imediatamente tivemos que tomar essa decisão”, disse, explicando que os bispos brasileiros iriam trazer conterrâneos seus como investidores, para comprarem as catedrais e subalugarem à IURD.

“Nós construímos a igreja com recursos próprios, eles iriam vender e depois alugar aos mesmos compradores, quer dizer nós iriamos manter na instalação, mas íamos pagar renda. Mas se já construímos com o nosso dinheiro para quê esse processo? É uma forma de tirar dinheiro”, referiu.

O pastor lamentou a mensagem que está a circular do fundador da igreja, o brasileiro Edir Macedo, “a amaldiçoar todo os angolanos”.

“Dizer que nós vamos descer à sepultura, vamos morrer, porque nós estamos a tomar a menina de ouro dele, Angola para ele é a galinha dos ovos dourados, de onde sai milhões e milhões”, disse.

A Lusa tem tentado obter uma reação da direção brasileira, mas sem sucesso.

Instituto que legaliza igrejas avalia queixa apresentada por bispos angolanos da IURD

O Instituto Nacional dos Assuntos Religiosos (INAR) de Angola disse hoje que está a trabalhar com as autoridades judiciais sobre o manifesto de bispos e pastores angolanos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que estão contra a direção brasileira.

Segundo o diretor do INAR, Francisco Castro Maria, que reagia aos novos desenvolvimentos na IURD, ocorridos na semana passada, com pastores e bispos angolanos a tomarem a direção da igreja, por não concordarem com a gestão dos brasileiros, a reação atual é consequência da situação denunciada em novembro de 2019.

“Recebemos o manifesto dos pastores e bispos angolanos e temos estado a trabalhar nisso, mais do que isso não podemos avançar nada. Agora compete aos órgãos de justiça se pronunciar, sobretudo à PGR (Procuradoria-Geral da República)”, disse Francisco Castro Maria, em declarações hoje à agência Lusa.

Instado a comentar o alerta feito ao INAR pela direção brasileira, num documento publicado na sua página de uma rede social, a que chamaram “direito de resposta”, o responsável angolano desvalorizou o mesmo, salientando que estão poe dentro da situação.

“Estamos por dentro da situação, isso aí não nos afeta em nada, não são eles que têm de nos alertar, esse alerta para nós não diz nada. Estamos a trabalhar com o assunto desde novembro, então eles têm que aguardar, não têm que nos alertar em nada”, referiu.

No “direito de resposta”, a direção brasileira da IURD manifestou-se surpreendida por diversas notícias que davam conta que “algumas igrejas foram invadidas juntamente por pastores dissidentes e desconhecidos”.

No documento, a direção brasileira, que criticou “a forma tendenciosa e caluniosa” que dois órgãos de informação nacionais conduziram o processo, rejeitava a informação de que a IURD está a ser liderada por uma ala angolana ou uma ala brasileira, sublinhando que se trata de “uma instituição mundial, dirigida pelo espírito de Deus e com o conselho de direção constituído legalmente”.

“O que temos visto são atos criminosos, beirando ao terrorismo, além da inércia de algumas autoridades competentes”, refere o documento, alertando a PGR e a Polícia Nacional que “os crimes na qual citam que irão coibir, já ocorreram e estão se perpetuando através de expulsões de pastores brasileiros, angolanos, moçambicanos, das igrejas residências de forma voluntária”.

“Alertamos o INAR, Ministério da Cultura, Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos, que uma organização criminosa está se auto declarando uma nova igreja”, refere a direção brasileira.

Questionado se o INAR recebeu algum pedido de legalização para uma nova IURD, Francisco Castro Maria reforçou que existe apenas o manifesto de novembro dos bispos e pastores angolanos.

“Vamos aguardar. Ao nosso nível, nós estamos a tratar do assunto, só que por enquanto não podemos ainda dizer nada, até porque nós estamos a trabalhar em coordenação com os órgãos de justiça, sobretudo a PGR, e os órgãos do Ministério do Interior, o Serviço de Investigação Criminal (SIC), então vamos aguardar”, frisou, sublinhando que neste tipo de situação, “cada um tenta lavar a sua pele”.

Na semana passada, os bispos e pastores angolanos tomaram a direção da IURD, por não concordarem com a gestão brasileira, a quem acusam da prática de evasão de divisas, branqueamento de capitais e racismo, bem como de castração.

Em dezembro de 2019, a PGR instaurou dois processos-crime contra a IURD, tendo como base as denúncias feitas pelos pastores angolanos.

A IURD, fundada por Edir Macedo em 1977, tem acumulado polémicas um pouco por todo o mundo, incluindo o envolvimento numa alegada rede ilegal de adoções em Portugal, e noutros países lusófonos, como São Tomé e Príncipe, onde os fiéis se revoltaram contra a detenção de um pastor são-tomense num protesto onde foi morto um jovem.

A organização religiosa já esteve na mira da justiça de vários países, além do Brasil, onde Edir Macedo, que construiu um verdadeiro império empresarial e chegou a ser considerado um dos pastores evangélicos mais ricos do país, foi preso, em 1992, sob acusação de charlatanismo e estelionato (burla), que foram mais tarde anuladas.

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