Quarta, 27 de Mai de 2020
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Segunda, 16 Março 2020 10:58

Até que ponto Higino Carneiro pode comprometer João Lourenço?

Quanto mais se aperta o cerco a Higino Carneiro, mais este se torna ameaçador ao Presidente angolano. Ao contrário do clã dos Santos, não dá sinais de recear as consequências da campanha de Lourenço contra a corrupção.

Ao que tudo indica, o general Higino Carneiro não se está a deixar intimidar pela ofensiva de combate à corrupção de João Lourenço. É que supostas provas que comprometeriam o estadista angolano foram divulgadas, deixando-o numa "saia justa".

Recentemente, o Novo Jornal publicou um artigo sobre empresas que teriam confirmado que o Governo Provincial de Luanda (GPL), gerido por Carneiro de 2016 a 2017, teria patrocinado a campanha eleitoral de João Lourenço para as eleições de 2017.

Desde que foi aberto um processo contra si, em meados de 2018, por suspeitas de corrupção, que Higino Carneiro não hesitou em dar a entender que o dinheiro público não justificado nas contas do GPL teriam beneficiado o próprio Lourenço.

Onde estão as provas?

Apesar das crescentes investidas contra o Presidente, o analista Osvaldo Mboco entende que é preciso mais do que isso.

"É fundamental que se prove estas alegações, de que, de facto algumas empresas alegam que, de facto, houve um financiamento do Presidente João Lourenço", defende o analista.

E Mboco prossegue: "Por isso é que temos um processo de investigação que está a correr os seus tramites normais sobre esta matéria. Agora, quanto ao depoimento do general Higino Carneiro dar a entender ou não que houve de facto isso, também terá de provar".

Apertos de cercos

Parece que quanto mais a Justiça angolana aperta o cerco a Carneiro, mais este se torna ameaçador a João Lourenço. Em fevereiro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) aumentou esforços para identificar e recuperar em Portugal bens de altas figuras angolanas envolvidas em esquemas de corrupção, entre elas do general.

E a Justiça angolana merece, por esse tipo de ações, um voto de confiança, entende Osvaldo Mboco: "E parece-me que hoje as instituições judiciais começaram, de facto, a criar uma nova dinâmica. E quero crer que, de facto, esses caso será tratado com outros casos que temos assistido no país, porque se assim não for, tendo conta dos argumentos de uma gestão danosa por parte do general Higino Carneiro e não for tomada as devidas medidas poderemos entrar num ciclo que demonstra que estamos perante uma justiça seletiva".

Isabel dos Santos não conseguiu ir tão longe quanto Carneiro

Mas o general, considerado "intocável", não foi o único a ameaçar o Presidente angolano em situação de aperto, a filha do ex-Presidente José Eduardo dos Santos também o fez recentemente. Numa entrevista ao Expresso, Isabel dos Santos também ameaçou divulgar os contornos da caça ao voto envolvendo a petrolífera Sonangol. Contudo, a justiça angolana asfixiou-a financeiramente com uma ação, o que terá feito Isabel dos Santos fechar a boca, numa aparente medida de prudência ou medo.

"Quanto as insinuações que foram feitas pela engenheira Isabel dos Santos era fundamental que a engenheira pudesse fundamentar ou apresentar alguns dados ou informações que interferem o seu posicionamento ou que tem informações, que tem provas que possam comprometer a imagem de João Lourenço", diz Mboco.

Lei admite que candidatos recebam doações

Importa sublinhar que nas eleições de 2017 João Lourenço foi o cabeça de lista do MPLA, partido que governa, e na altura dirigido por José Eduardo dos Santos. O facto de ter sido escolhido por eleição indireta dá ao atual Presidente margem para imputar responsabilidades ao MPLA em caso de se apresentarem provas contra si?

Para Luís Jimbo é especialista em eleições "este não é um problema, não é um facto, o facto é como é que o dinheiro foi dado. Porque se foi dado nos termos da lei, como doação, não importa se foi João Lourenço que recebeu ou se foi o partido que recebeu. A Lei admite que os candidatos recebam doações."

Contudo, o especialista recorda que não será fácil provar que foram doações ao candidato do MPLA, mas as revelações das empresas comprometem politicamente uma elite no partido.

Consequências para João Lourenço?

E se o general Carneiro vier, de facto, a comprometer o Presidente angolano, como tem estado a sinalizar, quais seriam as consequências para a imagem de João Lourenço e para uma das maiores bandeiras do seu Governo, a luta contra a corrupção?

"As consequências seriam logo a partida a desacreditação por parte da população, porque vamos ter elementos que vão contrariar o discurso do Presidente [de combate à corrupção]. Mas só as investigações é que poderão, de facto, determinar o curso dessa pretensão", responde Mboco.

Higino Carneiro foi constituído arguido em fevereiro de 2019. Mas o general é também deputado e por isso coberto por imunidade. De qualquer forma o especialista em eleições Luís Jimbo acredita que este caso não passará do nível da especulação e da querela política. DW Africa

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