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Sexta, 17 Janeiro 2020 23:32

Justiça do Mónaco investiga José Eduardo dos Santos e Isabel dos Santos

José Eduardo dos Santos, Isabel dos Santos e Sindika Dokolo são suspeitos do crime de branqueamento de capitais. PGR de Angola diz que vai colaborar na investigação.

“Encruzilhada.” Foi nestes termos que Lopo do Nascimento, dirigente histórico do MPLA, reagiu à investigação que as autoridades judiciais do Mónaco estão a realizar ao antigo Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. No mesmo processo estão a ser investigados a filha, Isabel dos Santos, e o genro, Sindika Dokolo, todos suspeitos do crime de branquea­mento de capitais.

As investigações poderão vir a estender-se a outros familiares, amigos e colaboradores mais próximos que, de forma direta ou indireta, com eles estiveram envolvidos em negócios: “Isto pode atingir muita gente que no passado detinha poderes e ligações com Isabel dos Santos e marido”, revelou um oficial dos serviços de investigação criminal de Angola, que acompanha o caso em estreita colaboração com a Interpol. Na origem das suspeitas das autoridades monegascas estarão elevados montantes depositados em instituições financeiras no principado.

O caso e as investigações que já decorrem há alguns meses, segundo fonte da Interpol, terá ganhado nova força na sequência das acusações feitas pelo Tribunal Provincial de Luanda, apontando um rol de alegados crimes atribuídos a Isabel dos Santos e marido durante o período em que o pai foi Presidente de Angola.

O Expresso sabe que têm sido marcadas sucessivas reuniões entre o representante da Interpol em Angola, Destino Pedro, e peritos da Direção Nacional de Investigação Criminal, adstrita ao Ministério do Interior. “Vamos dar colaboração efetiva à Interpol”, disse ao Expresso o procurador-geral da República de Angola, Hélder Pita Gróz.

Leopoldino Nascimento, o mais fiel dos antigos colaboradores de Eduardo dos Santos, mostrou-se incrédulo com a investigação. “Não sei de nada.” Apesar de a generalidade da classe política angolana ter sido apanhada de surpresa, em alguns meios sabia-se que as autoridades judiciais do Mónaco estavam, há já algum tempo, no encalço dos movimentos financeiros da família de Eduardo dos Santos no seu território. O Expresso apurou que no ano passado as autoridades de Angola dizem ter recebido um pedido de informação do Bureau Central National (BCN) da Interpol no Mónaco. Nesse pedido, a Procuradoria-Geral do principado do Mónaco solicitava às autoridades angolanas informações relacionadas com o antigo Presidente de Angola, e sua filha, tentando saber se os mesmos foram submetidos a procedimento criminal e, em caso afirmativo, se foram julgados e condenados pela Justiça angolana.

Os Serviços de Investigação Criminal entraram então em contacto telefónico com o BCN, tendo ficado esclarecido que está a decorrer um processo de investigação de branquea­mento de capitais no Mónaco no qual o ex-chefe de Estado angolano, sua filha e esposo, depositaram grandes somas financeiras em bancos sediados naquele principado, que provavelmente tinham sido obtidas de forma ilícita.

Questionada pelo Expresso sobre se tem conhecimento da investigação no Mónaco e sobre se tem contas bancárias no principado, Isabel dos Santos não respondeu, tal como não respondeu a outras perguntas feitas nas últimas semanas sobre os seus negócios e sobre a mudança de residência para o Dubai. “Não falo com o Expresso”, disse a empresária em entrevista à RTP3, na passada quarta-feira.

No Mónaco, é conhecido que Isabel dos Santos e o seu marido têm ativos imobiliários no valor de €53 milhões, nos quais investiram através da sociedade Athol Limited, de Malta. É uma de várias empresas que Isabel dos Santos e Sindika Dokolo têm em Malta, para gerir diversos negócios (um deles é a participação de Isabel dos Santos na portuguesa Efacec, controlada a partir da maltesa Winterfell).

Há vários anos que o Mónaco seduziu Isabel dos Santos. Em 2017, o iate “Hayken”, que valerá cerca de €30 milhões e que foi adquirido pela empresária e o seu marido em 2016, estava ancorado ao largo do Mónaco. A luxuosa embarcação tem 50 metros de comprimento.

Questionada sobre o caso, a Procuradoria-Geral do Mónaco limitou-se a responder que “respeitando o princípio do segredo de possíveis investigações” não comentava o caso. Já a Interpol do Mónaco não responde aos contactos do Expresso. Em Portugal, também a Procuradoria-Geral da República não fez qualquer comentário.

“O melhor é regressar”

O ex-Presidente angolano terá mesmo sido aconselhado há dois meses a regressar a Angola, apurou o Expresso. “Não veio porque, em novembro, foi acometido com indícios de uma trombose”, revelou um antigo membro do seu gabinete.

Com o cerco a apertar-se, a margem de manobra de José Eduardo dos Santos começa a ficar cada vez mais reduzida e Luanda surge como o seu próximo ponto de abrigo. “Não beneficiando de imunidades no estrangeiro, é em Angola que se encontra mais seguro”, referiu aquela fonte. Lopo do Nascimento acrescenta: “Apesar de tudo, deve ser protegido, pois isto é humilhante para Angola.”

O regresso de José Eduardo dos Santos coloca, no entanto, João Lourenço num dilema político. De costas viradas, o Presidente está a ser desafia­do a atribuir a Eduardo dos Santos o mesmo tratamento que deu ao antigo vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, durante a Operação Fizz, protegendo-o das intenções da Justiça portuguesa. Lopo do Nascimento não acredita que o ex-Presidente venha a ficar indiferente a este caso, espoletado pela cruzada anticorrupção desencadeada pelo novo governo. “Tudo se resolverá a partir do momento em que a filha e outros infratores acatarem as disposições da lei de repatriamento de capital ilícito”, disse um deputado do MPLA no anonimato.

No seguimento do arresto decretado pelo Tribunal Provincial de Luanda aos bens de Isabel dos Santos, o antigo Presidente enviou esta semana uma carta dirigida ao presidente do Parlamento e ao presidente do Tribunal Constitucional. Na missiva, segundo apurou o Expresso, o antigo Presidente demarca-se de qualquer envolvimento pessoal no processo da venda de diamantes ou de petróleo. “Os diamantes eram vendidos pela Sodiam e a Endiama, e os clientes preferenciais assinavam um contrato de compra e venda com a Sodiam”, lê-se na carta.

Avançando com a mesma tese em relação à Sonangol, o antigo Presidente atribuiu a responsabilidade pelo controlo da venda do petróleo, respetivamente, a Joaquim David, Manuel Vicente e Francisco Lemos, os presidentes que antecederam a entrada da filha na Sonangol. “Nunca transferi, para mim próprio ou qualquer outra entidade, dinheiro do Estado”, garantiu Eduardo dos Santos. EXPRESSO

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