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Terça, 17 Março 2015 12:12

As mais recentes dissidências no MPLA - Reginaldo Silva

Na mais recente história do MPLA, desde que nos idos de 90 teve inicio o processo de abertura ao multipartidarismo em Angola, não há muitos casos conhecidos de dissidência política que tenham feito manchete na imprensa.

A explicar esta aparente estabilidade interna está, antes de mais, o facto do MPLA ter sabido conservar o poder e sempre numa posição de altamente vantajosa de partido maioritário.

Tal pedestal tem-lhe permitido conduzir a transição sem nunca ter enfrentado grandes sobressaltos internos e também sem nunca ter aprofundado o próprio processo de democratização intramuros.

Em abono da verdade a confortável maioria com que o MPLA governa  o país desde então, tem representado uma espécie de redoma protectora contra as inevitáveis tendências centrífugas que de uma forma geral marcam com maior ou menor intensidade a vida dos partidos ao longo da sua trajectória.

Não temos muitas dúvidas em admitir que numa situação politicamente diferente, menos confortável, daquela que sempre viveu no xadrez nacional, a estabilidade interna do MPLA iria certamente enfrentar outros desafios bem  mais complexos do que aqueles que tem conseguido ultrapassar nas actuais condições, enquanto todo poderoso “partido da situação”.

A hipótese de termos o MPLA a fazer “uma cura de oposição” teria um impacto ao nível da sua coesão interna que se adivinha bastante desagregador, tendo em conta a própria história desta organização antes da ascenção de Angola à  independência e mesmo depois.

Como se sabe antes de 1975, o MPLA já esteve partido em três facções, a saber, MPLA-Neto, Revolta Activa e Revolta do Leste, cuja disputa por pouco não comprometia a sobrevivência definitiva do histórico Movimento.

Depois da independência, o MPLA viveu a sangrenta crise do 27 de Maio, que dividiu profundamente as suas fileiras até aos dias de hoje, na sequência de uma purga interna sem precedentes, tendo como comparação situações idênticas vividas na Africa pós-colonial.

No período que interessa para esta avaliação, isto é, já nas novas condições criadas com o fim do monopartidarismo, o advento da paz e  institucionalização da Segunda República, a primeira figura de proa do MPLA que bate com a porta, foi Paulino Pinto João (PPJ), um destacado “aparatchick”.

A dissidência de PPJ tem para nós uma certa relevância histórica e mesmo política no contexto do MPLA, revelando da sua parte uma coragem invulgar que saltou à vista de todos.

Apesar de formalmente já haver liberdade para tal, o receio das retaliações silenciosas era e continua a ser demasiado presente em Angola.

Com efeito, até aos dias de hoje as pessoas ligadas ao MPLA de uma forma ou de outra, raramente fazem pronunciamentos públicos desfavoráveis aos interesses da liderança do Presidente Eduardo dos Santos, mesmo quando são manifestamente vítimas de alguma justiça ou vão parar a cadeia, como foi o emblemático  caso do Brigadeiro Miala.

Existe uma espécie de “Lei do Silêncio” a aconselhar os “caídos” a terem mais calma com a língua, pois sempre poderá haver uma outra oportunidade, que pode ficar definitivamente comprometida se formos para a comunicação social “falar mal do Chefe”.

Pinto João formou um partido, a Convenção Nacional Democrática de Angola (CNDA) e concorreu às primeiras eleições de 92, não tendo, contudo, conseguido eleger um único deputado.

Na última entrevista que deu o ano passado ao “País”, poucas semanas antes de falecer, PPJ disse que a ideia inicial era criar um partido para fazer frente ao MPLA, UNITA e a FNLA, os três grandes e hegemónicos da época.

“Nós conseguimos reunir no seio da CNDA muitos dissidentes destes partidos. Confesso que o ideal era bom, mas fazer política sem dinheiro não se faz. A pessoa tinha que ter dinheiro para materializar o ideal. Eu sei organizar partido, essa é a minha especialidade, estudei na faculdade organização partidária.”- recordou PPJ.

Para Pinto João em Angola sem dinheiro não se consegue fazer nada.

“Sei como se criam células, primeiro na clandestinidade, transportei esta experiência primeiro para o MPLA e depois para a CNDA. Mas fazer política sem dinheiro…Você pode ter boas ideias, mas não avança”.

Depois de Pinto João, o MPLA viria a conhecer com o caso de Marcolino Moco o segundo caso de dissidência, embora o antigo Secretário-Geral e ex-Primeiro Ministro ainda não tenha formalmente a abandonado as fileiras da organização.

Este segundo caso parece-me ser politicamente ainda mais importante do que o primeiro pelo potencial que Moco possui, numa altura em que o próprio de forma cada vez explicita já admite a possibilidade de vir a protagonizar uma candidatura.

Finalmente, chamaríamos para esta pequena lista dos dissidentes do MPLA, o Almirante André Mendes de Carvalho (Miau) que actualmente lidera o grupo parlamentar da CASA-CE, um projecto saído da lavra de um outro dissidente, Abel Chivukuvuku, um antigo e destacado dirigente da UNITA.

Embora Miau já não fizesse parte dos quadros do MPLA, tendo em conta a sua condição de oficial superior das FAA, a sua entrada para a CASA-CE é claramente uma ruptura política frontal com a liderança do Presidente José Eduardo dos Santos, com todas as consequências que esta “transferência” teve no seio da “grande família” de que Miau era um activo e fervoroso membro.

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