Sábado, 04 de Julho de 2020
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Quinta, 28 Mai 2020 13:38

Negligência na Multiperfil fez quarta vítima da Covid-19

No último sábado, 23, o secretário de Estado para a Saúde Pública anunciou a morte, provocada pela Covid’19, de uma quarta pessoa. Ao comunicar o passamento, Franco Mufinda fê-lo como se estivesse a passar por brasas. Foi rapidíssimo, não deu pormenores.

Mais: ao invés de anunciar primeiro a morte, começou o seu ponto da situação diário dando a conhecer que na véspera fora registado mais um caso de transmissão local e, como consequência, estariam sob controlo 14 contactos do cidadão de 43 anos de idade.

Sobre essa vítima de 43 anos, o governante foi telegráfico. “Por outro lado, informamos que registamos mais um óbito” e logo de seguida continuou a sua cantilena informando que “sendo assim, temos um total de 61 casos”. A forma apressada como Franco Mufinda passou pela quarta morte, como se fosse só mais um número, levantou suspeitas de que algo estava errado com o paciente que perdeu a vida por volta das 13h00 daquele sábado e foi a enterrar no dia seguinte, sob apertadas medidas de vigilância sanitária.

Estranhamente, em relação aos três mortos anteriores as autoridades revelaram as idades das vítimas e, mesmo de forma concisa, as circunstâncias. Mas em relação à vítima desse dia nada mais do que a nota lacónica do secretário de Estado. E, estranhamente, ele não se deteve em pormenores, sempre habituais nas suas comunicações, como a forma de contágio do indivíduo – se por infecção hospitalar ou de outra natureza – num gesto de desconsideração para com quem paga impostos a partir dos quais é feito o seu ordenado.

O Correio Angolense apurou que o quarto óbito ocorreu por negligência, algo imperdoável, sobretudo, numa situação de Estado de Emergência como a que vigorava nessa altura. Fonte do Ministério da Saúde assegurou a este portal que o cidadão angolano de 43 anos morreu numa enfermaria do 1.º andar da Clínica Multiperfil, controlada pela Casa de Segurança da Presidência da República.

De acordo com a mesma fonte, o indivíduo, de sexo masculino, estava internado na clínica e prestes a receber alta após estabilizar, na sequência de intensivas sessões de tratamento de diálise. “O paciente havia estabilizado e saído da UTI. Daí a dias iria para casa, donde começaria a receber tratamento ambulatório”.

“Num desses dias, quando regressou à enfermaria, depois de uma sessão de diálise, encontrou um segundo paciente. Ele ainda falou com os enfermeiros e familiares, reclamando da ininterrupta tosse do outro paciente. Mas ninguém no hospital lhe deu ouvidos”, acrescentou a mesma fonte que não quis ser identificada.

De acordo com essa fonte , o “Morto n.º 4”, que é assim que foi catalogado o fakecido, “foi infectado pelo caso 50, um cidadão português de 88 anos de idade, com um histórico de 42 anos como fumador”.

Sogro de um oficial general das Forças Armadas Angolanas (FAA), o octogenário chegou de Portugal em Fevereiro último e pouco depois sentiu-se mal. Na sequência, foi internado ainda naquele mês na Clínica Caridade, na urbanização Nova Vida. Ao fim de alguns dias de internamento nessa clínica o indivíduo não apresentou melhorias e por isso os familiares decidiram por recambiá-lo para Portugal. Porém, o intento esbarrou na exigência das autoridades diplomáticas lusas de apresentação de um teste à Covid 19, procedimento que não é foi feito na Caridade.

No dia 4 de Maio o cidadão luso foi transferido para a Clínica Multiperfil. Nessa unidade hospitalar, foi instalado numa enfermaria com um paciente a receber tratamento renal e só foi testado passados alguns dias, mesmo sob o protesto do pessoal médico que desaconselhou a “mistura”. Quando o resultado chegou finalmente, foi transferido para o Centro de Calumbo, onde faleceu no dia seguinte à sua chegada. Ou seja, na segunda-feira da semana passada, 18 de Maio.

“Não é entendível que, estando o mundo em situação de excepção, em face do quadro de dificuldade respiratória que o doente apresentava, não tivesse sido isolado imediatamente e só liberado após resultado do teste. Provavelmente terá havido uma ordem superior ou excesso de zelo de alguém que queria agradar o general para que a entrada do caso 50 não observasse os parâmetros básicos de actuação em situações do género”, alvitra a fonte para quem houve “negligência imperdoável” no tratamento do caso porque quando chegou à Multiperfil já era tratado como caso suspeito. Para a fonte é também estranho que uma clínica do porte da Caridade ainda não realize testes à Covid-19.

Depois da morte do octogenário português, o paciente angolano com quem partilhou a enfermaria e que, entretanto, também acusou positivo no teste feito, ficou sem assistência nos dias subsequentes. “Apesar da propaganda que se faz, parece-me que muitas unidades hospitalares não estão preparadas para lidar com a situação. Inclusive a Multiperfil que, teoricamente, é uma unidade de referência. O paciente, que padecia de problemas renais, deixou de receber assistência porque alguém entendeu que podia infectar outros doentes no centro de diálise. Ficou de terça-feira, 19, até sexta-feira última, 22, sem o tratamento de diálise”, denúncia a fonte.

Por isso, admite que a causa da sua morte pode não ter sido a oficialmente apresentada pelas autoridades sanitárias. “O doente pode até não ter morrido propriamente de Covid-19, mas de problemas decorrentes da falta de diálise. Afinal, foram cinco dias seguidos sem o tratamento que deveria ser diário”.

MULTIPERFIL JÁ FOI PRIVATIZADA?

Na conferência de imprensa do dia seguinte, 14, a ministra da Saúde, Sílvia Lutukuta, fez referências mais desenvolvidas à morte ocorrida na Multiperfil. Contudo, sempre que o fez, Sílvia Lutukuta referiu-se à Multiperfil como uma clínica privada.

Criada em 2002, com o objetivo de prestar serviço público, a Clínica Multiperfil é “um instituto público sujeito à superintendência do governo e à prestação de contas à Presidência da República”.

Por meio da Resolução n.º 09/02 de 14 de Junho, o então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, conferiu aos Serviços de Apoio ao Presidente da República os poderes específicos de superintendência da Clínica Multiperfil. Um outro instrumento, o Decreto Presidencial n.º 181/10, de 20 de Agosto, que aprovou o estatuto orgânico da Casa Militar do Presidente da República, certificou a Clínica Multiperfil como organismo dependente e tutelado pela Casa Militar.

Portanto, até onde é razoável supor, a Multiperfil é uma unidade hospitalar pública. Ao atribuir-lhe outra condição jurídica, Silvia Lutukuta deveria esclarecer quando e quem ordenou essa transferência.

Ou a ministra da Saúde está da posse de informação que escapa à generalidade dos cidadãos deste país?

Apesar dos preços proibitivos que pratica, incomportáveis para os bolsos da maioria deste país, a Multiperfil ainda é – pelo menos é assim que os cidadãos pensam – uma unidade pública. CA

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