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Sábado, 21 Fevereiro 2026 11:49

Pacto de Transição 2027: prevenção democrática ou antecipação do conflito?

A proposta de um “Pacto de Transição” para as eleições gerais de 2027, avançada pelo presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, introduz um novo eixo no debate político nacional: o da confiança prévia nas regras do jogo e na aceitação dos resultados. Mais do que uma simples iniciativa partidária, a ideia coloca em discussão o grau de maturidade institucional do sistema político angolano e a qualidade do seu pluralismo democrático.

Ao defender um pacto antes da realização das eleições, a UNITA sustenta a necessidade de criar mecanismos preventivos de estabilidade, tanto no período pré-eleitoral como no pós-eleitoral. A lógica é clara: reduzir o risco de contestação violenta, bloqueios institucionais ou crises de legitimidade que possam comprometer a governação.

Contudo, a reação do MPLA, pela voz do deputado João Mpilamosi, revela outra leitura possível. Para o parlamentar, a proposta só é admissível se estiver estritamente enquadrada na Constituição. O alerta não é apenas jurídico; é também político. Ao sugerir um pacto de transição antes da votação, a UNITA poderá estar — segundo esta perspetiva — a insinuar um cenário de instabilidade futura ou a preparar terreno para contestar resultados desfavoráveis.

Este ponto é central: o debate não gira apenas em torno do conteúdo do pacto, mas da mensagem implícita que ele transporta. Num sistema democrático consolidado, a alternância é uma possibilidade normalizada. Quando um pacto de transição é colocado em cima da mesa antes da disputa eleitoral, isso pode ser interpretado como prudência institucional ou como indício de desconfiança estrutural nas instituições eleitorais.

A controvérsia remete inevitavelmente para a credibilidade da Comissão Nacional Eleitoral e do Tribunal Constitucional. Ao rejeitar as críticas da oposição, João Mpilamosi argumenta que as instituições atuam dentro da legalidade e acusa a UNITA de adotar um padrão seletivo: valoriza decisões favoráveis e deslegitima as desfavoráveis.

Esta tensão não é nova, mas revela um problema estrutural: a confiança institucional em Angola continua a ser politicamente disputada. Quando a legitimidade dos órgãos eleitorais depende da perceção de neutralidade, qualquer sinal de fragilidade pode amplificar discursos de suspeição. Assim, o “Pacto de Transição” acaba por funcionar como sintoma de um défice de confiança que antecede o próprio processo eleitoral.

O posicionamento do secretário-geral do Bloco Democrático, Mwata Sebastião, introduz uma dimensão histórica relevante. Ao evocar os Acordos de Alvor, os Acordos de Bicesse e o Memorando de Entendimento do Luena, recorda que momentos de transição política no país foram, em diferentes fases, marcados por ruturas, conflitos ou regressões.

A leitura do Bloco Democrático é preventiva: o risco não é meramente hipotético, mas estrutural. Para este setor da oposição, a alternância democrática exige garantias mútuas que protejam tanto quem vence como quem perde. O objetivo seria evitar receios de perseguições políticas, retaliações administrativas ou bloqueios institucionais.

Esta posição revela uma perceção mais ampla do problema: não se trata apenas de aceitar resultados eleitorais, mas de assegurar que a alternância — caso ocorra — não seja acompanhada por instabilidade sistémica.

Estratégia eleitoral ou engenharia institucional?

No plano estratégico, a proposta também pode ser lida como movimento de posicionamento político. Ao colocar o tema da transição no centro do debate, a UNITA reforça a narrativa de que a alternância é uma possibilidade concreta em 2027. Simultaneamente, transfere para o partido no poder o ónus de se comprometer publicamente com garantias adicionais de estabilidade.

Já o MPLA, ao reafirmar que respeitará os resultados “independentemente do desfecho”, procura projetar confiança institucional e afastar qualquer suspeita de resistência à alternância. O desafio lançado à UNITA para apresentar previamente o seu programa de governação também revela uma tentativa de recentrar o debate no confronto programático, e não em cenários de crise.

No fundo, a discussão sobre o “Pacto de Transição” expõe um dilema típico de democracias em consolidação: como equilibrar prudência política e confiança institucional? Se o pacto for visto como mecanismo de prevenção, poderá fortalecer o sistema. Se for percebido como sinal de desconfiança estrutural, pode agravar a polarização.

A maturidade do processo eleitoral de 2027 dependerá menos da existência formal de um pacto e mais da capacidade das forças políticas de consolidar consensos mínimos sobre regras, resultados e legitimidade institucional. Em última análise, a estabilidade democrática não nasce apenas de acordos formais, mas da internalização, por todos os atores, de que o poder se conquista e se perde nas urnas — e que essa alternância é parte integrante do jogo democrático.

Por Luis Carlos

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