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Quarta, 04 Fevereiro 2026 09:37

A China está a redefinir o lugar de África na política internacional?

Não há como analisar o papel de África no sistema internacional sem antes reconhecermos a magnitude da presença chinesa no interior do continente.

No entanto, é imperioso refletir que essa presença chinesa, já não pode ser mais encarada como uma simples expansão do ponto de vista económico, mas também como um motor que de facto está a moldar, mesmo que de forma não muito racional, as prioridades políticas, as capacidades institucionais e a própria voz africana no cenário internacional. Deste modo, é vital que tenhamos a capacidade de reconhecer que, estamos perante uma redefinição estrutural da posição de África no concerto das nações, e que a China de facto, está no epicentro desta transformação.

Portanto, a compreensão do que se pretende transmitir deve partir do óbvio: a relação sino-africana não é nova. Trata-se de uma plataforma de interação das geografias que vendo sendo construída há décadas através do Fórum de Cooperação China–África (FOCAC), um mecanismo oficial que reúne 53 países africanos e a China com vista a coordenar políticas, comércio e desenvolvimento.

No entanto, com a passar dos anos, é fácil percebermos que o conteúdo dessa cooperação mudou significativamente. O discurso oficial chinês tem passado de mera construção de infraestruturas para algo mais abrangente, ou seja, um compromisso que portas abertas para a “modernização conjunta” com um olhar voltado para a construção de um painel de parceria estratégica que engloba não só o comércio, mas também segurança, formação de quadros e política global conjunta.

É possível ver como os discursos de carácter oficiais, como os proferidos pelo ministro chinês Wang Yi e pelos próprios representantes da União Africana em encontros diplomáticos recentes, reafirmam esta visão. Precisamente no dia 8 de janeiro de 2026, no 9º Diálogo Estratégico China-União Africana em Adis Abeba, foi possível notar o modo como os líderes políticos sublinharam esforços conjuntos em matéria de governança global, facilitação comercial e sobre tudo a promoção de um sistema internacional mais justo, reflectindo uma visão que ultrapassa o simples bilateralismo económico.

Temos visto na prática como esta visão de facto se traduz em acordos concretos, abrindo assim uma nova lógica de parceria. Ora vejamos, em 2024 foram firmados um conjunto de acordos com o Chade e Senegal no Fórum de Pequim, envolvendo questões de energia, água, tecnologias de comunicação e desenvolvimento verde, o que demonstra claramente que a China está a apoiar sectores críticos para a sustentabilidade dos Estados africanos.

Podemos também mencionar o caso da Angola, onde as parcerias recentes incluem a assinatura de um Protocolo sobre o envio de equipas médicas chinesas e um Acordo-Quadro de Parceria Económica para o Desenvolvimento Compartilhado, destacando áreas como saúde e economia conjunta, o que traduz um relacionamento cada vez mais integrado.  

Outro exemplo evidente é o esforço de revitalização da linha férrea TAZARA, que liga a Zâmbia e a Tanzânia, num projecto de cerca de $1,4 mil milhões liderado por empresas chinesas, um investimento que embora executado de forma estratégica, ultrapassa a lógica isolada de infraestrutura e desenha uma rede que interliga as economias regionais.

No entanto, vale também referenciarmos a questão da segurança, o qual tem vindo a se constituir num importante no quadro das relações sino-africa. Tem sido evidente que a influência chinesa actualmente já não se constrói apenas na dimensão económica. Do ponto de vista político e institucional, há uma intensificação da cooperação de segurança e formação de líderes africanos. Os exercícios militares conjuntos com forças africanas e consequentemente também os envios de oficiais para formação são indicativos claros de o relacionamento com China, hoje que inclui elementos estratégicos de segurança e governação.

Ao mesmo tempo, a China tem promovido ideias em matéria de governação que, em muitos casos, oferecem alternativas às narrativas ocidentais sobre democracia representativa e instituições liberais, um fenómeno que está a ganhar terreno especialmente entre partidos políticos e líderes políticos africanos interessados em colocar em prática as fórmulas de governação que garantem estabilidade e desenvolvimento com ênfase nas prioridades nacionais.

Uma nova dimensão africana da transformação da ordem internacional

Ao meu ver, o impacto mais profundo das relações sino-áfrica talvez não esteja apenas nas estradas ou nos portos que a China ajuda os construir, mas sim na voz ampliada que África está a obter em fóruns internacionais, fruto da parceria que tem com a China.

A aposta chinesa em uma ordem global multipolar, expressa, por exemplo, na sua “Iniciativa de Civilização Global” e nas suas colaborações com o bloco do Sul Global, alinha-se com interesses africanos de menos dependência das potências tradicionais e maior protagonismo nas decisões que moldam o sistema internacional.

Ao mesmo tempo, através do BRICS e de outros mecanismos multilaterais, os países africanos estão a afirmar posições conjuntas com a China sobre questões financeiras, comércio internacional e soberania na dimensão económica, espaços onde, historicamente, as vozes africanas eram marginalizadas.

Portanto, esses indicadores devem levar-nos a refletir que de facto a China está a redefinir o lugar de África na política internacional. Mas vale mencionar que isso não acontece unilateralmente; trata-se na verdade de uma reconfiguração complexa, em que os governos africanos, nas suas múltiplas diversidades, também participam activamente.

É verdade que redefinição não é isenta de críticas. Há questões que levantam debates sobre dependência económica, influências de segurança e transparência institucional. Mas, a verdade inquestionável é que a presença chinesa ampliou o poder de negociação do continente africano, diversificou as suas parcerias globais e contribuiu para que o continente, do ponto de vista geopolítico, seja hoje um actor mais central, mais articulado e mais ousado nas grandes questões que moldam o futuro do sistema internacional.

Por Juvenal Quicassa

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