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Domingo, 22 Março 2026 15:05

Jovens enfrentam barreiras à participação política em sistemas dominados por partidos hegemónicos

A disparidade etária entre a população africana — maioritariamente jovem — e os seus governantes resulta, em grande medida, dos processos de descolonização e da posterior consolidação de partidos hegemónicos no poder. A análise é do investigador Miguel Silva, em declarações à Lusa.

Segundo o especialista, em vários países africanos os sistemas políticos funcionam, na prática, como “quase partidos únicos”. “Embora haja eleições, a rotatividade no poder é muito baixa”, afirmou, dando o exemplo de Angola, onde o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) governa desde a independência.

Como consequência, os jovens que não pertencem a famílias influentes, não vivem nas capitais ou não têm proximidade aos centros de poder “estão muito longe de conseguir ter uma voz ativa, tanto no partido hegemónico como nos partidos da oposição”, sublinhou.

De acordo com Miguel Silva, estas gerações são frequentemente mobilizadas apenas em períodos eleitorais, sem capacidade real para influenciar ou transformar a estrutura do sistema político. Essa exclusão acaba por afetar a relação da juventude com a democracia. “Os jovens têm uma dificuldade enorme em sentir que a sua participação é válida”, disse.

Deste afastamento resultam, segundo o investigador, duas tendências principais: por um lado, o distanciamento da política institucional; por outro, o aumento da pressão sobre o sistema. “Quando não conseguimos canalizar a frustração para as instituições, ela acaba por sair por qualquer lado”, alertou, apontando manifestações, ruturas violentas e até golpes de Estado como possíveis consequências da ausência de canais efetivos de participação.

O investigador destacou ainda uma quebra na participação eleitoral entre os mais jovens. “Cada vez há menos jovens a votar, porque não acreditam no sistema”, afirmou, notando, no entanto, o crescimento de formas alternativas de organização, como associações cívicas e movimentos de pressão.

Apesar disso, advertiu para os riscos do desinteresse partidário, que pode “impedir a renovação dos quadros políticos e dificultar o surgimento de novas forças”. Paralelamente, considerou preocupante o facto de alguns setores da juventude começarem a olhar para soluções autoritárias como alternativa. “Pela primeira vez, depois das independências, volto a ouvir em África uma defesa muito forte do autoritarismo, muitas vezes com referência ao Ruanda”, referiu.

Em síntese, Miguel Silva aponta para a dificuldade em “furar um aparelho político que se autoprotege, domina o sistema económico e bloqueia a entrada de novas gerações com outras prioridades”.

Segundo dados da União Africana, África é atualmente o continente com a população mais jovem do mundo, contando com mais de 400 milhões de pessoas entre os 15 e os 35 anos. As projeções indicam que este número poderá ultrapassar os 830 milhões até 2050, num continente que alberga atualmente cerca de 1,3 mil milhões de habitantes.

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