O que a Noite e Dia conquistou não foi por intermédio da Polícia. Muito pelo contrário: alguns programas da própria instituição tornaram-se mais conhecidos por sua causa.
Tenho ouvido muitos jovens dizerem que trabalhar no Estado é mais seguro. No entanto, aquilo que parece segurança, muitas vezes não passa de uma limitação.
Vejamos:
A Polícia rege-se por uma tabela salarial e por um conjunto de regalias associadas aos cargos, com remuneração mensal fixa. Acresce ainda a Lei n.º 10/25 (Regime Disciplinar do Agente da Polícia Nacional) e o regulamento de carreira, que levantam a seguinte questão: será que permitem, de forma plena, o exercício de actividades remuneradas em paralelo com a função policial?
Por outro lado, tendo em conta a visibilidade da Noite e Dia, qualquer ascensão na carreira sem respeitar os critérios formais poderá gerar controvérsia pública.
A Administração Pública é regida por normas rigorosas, como a Lei da Probidade Pública, o Código do Procedimento Administrativo e diplomas que responsabilizam os agentes públicos por acções ou omissões no exercício das suas funções. Qualquer falha pode ter consequências legais.
Por outro lado, foi através da música que a Noite e Dia alcançou reconhecimento nacional e internacional. Os seus espetáculos são, regra geral, casa cheia; as suas músicas têm forte presença na rádio, televisão, redes sociais e eventos.
Mesmo que, com o tempo, viesse a atingir cargos mais elevados na hierarquia policial — respeitando a progressão normal — dificilmente conseguiria, em dez anos, alcançar os mesmos resultados que obteve através da música.
Enquanto a Polícia oferece uma remuneração mensal, a música e a exploração da sua marca proporcionam rendimentos frequentes — diários e semanais.
O caso do cantor norte-americano Rick Ross é ilustrativo: deixou a carreira como agente penitenciário para se dedicar à música, motivado pelas oportunidades existentes. No presente caso, observa-se o percurso inverso.
Se a motivação for um sonho pessoal, importa questionar: será possível conciliar, de forma sustentável, as duas realidades — carreira policial e carreira artística? Num contexto de economia de mercado, os sonhos devem também ser sustentáveis do ponto de vista financeiro.
Um dos grandes desafios dos artistas em Angola é a expectativa de que o Governo resolva questões que, em muitos casos, dependem da própria iniciativa privada. O Estado tem vindo a criar enquadramentos legais favoráveis, mas muitos artistas aguardam soluções externas, incluindo apoios financeiros regulares.
Muitos esperam pelo momento ideal, quando, na verdade, esse momento já existe — nas oportunidades atuais, nos cachês recebidos, que muitas vezes não são reinvestidos, e na ausência de propostas concretas dirigidas às instituições públicas para o fortalecimento do sector.
Pessoalmente, observo muitos comentários e entrevistas, mas raramente se ouve falar de propostas estruturadas apresentadas e eventualmente rejeitadas.
Vivemos numa economia de mercado, onde a Administração Pública actua com base no princípio da legalidade. O quadro legal existe — e, em muitos casos, é favorável.
O que falta é a integração do ecossistema artístico para benefício próprio. O Estado pode desempenhar um papel relevante, mas não é o principal agente de execução. Num cenário equilibrado, o Estado poderá contribuir com uma parte menor (por exemplo, 10%), enquanto os próprios artistas e empresários assumem a maior responsabilidade (90%). Não é coerente exigir mais de quem tem menor responsabilidade na execução.
No sistema capitalista, o motor principal é o sector privado.
Por outro lado, é frequente ouvir que os artistas deveriam ser mais valorizados pelo Estado, sem que se explique de que forma isso se enquadra numa economia de mercado, onde o papel do Estado é, essencialmente, regulamentar e fiscalizar.
A Noite e Dia é uma marca forte que, em vez de ser apenas valorizada, pode estar a ser subaproveitada — e oportunidades desta dimensão podem não surgir novamente.
Importa questionar: não estará a desperdiçar uma oportunidade única de capitalizar plenamente tudo aquilo que construiu?
O momento mais favorável na música — e noutras actividades — é quando existe um público consumidor activo, sobretudo jovem. O desafio está em estruturar esse segmento e criar um verdadeiro ecossistema.
Hoje, a Noite e Dia pode alcançar, em um ano, resultados que a carreira na Polícia poderá demorar uma década a proporcionar.
Num país de oportunidades reais, o maior risco não é tentar — é abandonar aquilo que já funciona para abraçar uma segurança que limita o crescimento.
Por: Tomás Alberto

