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Quarta, 21 Janeiro 2026 13:34

A democracia selectiva de João Lourenço e a farsa eleitoral na OMA

O processo de escolha da futura secretária-geral da Organização da Mulher Angolana (OMA) deixou de ser apenas um episódio interno de rotina partidária. Transformou-se num retrato cru da democracia selectiva que impera no MPLA sob a liderança de João Lourenço.

O filme já é conhecido. Três candidatas apresentaram-se, duas foram supostamente “validadas” pela Comissão Nacional da OMA e, em nome da transparência, anunciou-se uma campanha eleitoral e um congresso competitivo.

Poucos dias depois, uma das duas finalistas, Graciete Dombolo Sungua, retirou subitamente a candidatura. Sem explicações convincentes. Sem debate. Sem contraditório. E com a bênção imediata do bureau político, presidido pelo próprio João Lourenço, inimigo número um de múltiplas candidaturas nos congressos.

Resultado. Emília Carlota Dias avança sozinha para liderar a OMA, tal e qual como no último congresso, em que Joana Tomás concorreu sozinha e ganhou. Pronto. Eleição de mentira. Sem escolha. Congresso sem competição. Democracia apenas no papel. Tudo à moda do MPLA.

A pergunta (estúpida) que se impõe é simples. Se o MPLA supostamente acredita realmente na pluralidade interna, por que razão tolerou duas candidaturas por escassas 72 horas?

E, mais grave ainda, por que motivo o presidente do partido aceitou – ou promoveu – que uma candidata legitimamente eleita pelas delegadas fosse afastada do processo?

A interferência do Bureau Político neste processo não é um detalhe técnico. É a prova de que a OMA não decide, apenas executa. Que a escolha da sua liderança não nasce da vontade das “mamãs”, mas da conveniência da cúpula partidária, que tudo manda.

Este episódio ganha contornos ainda mais graves quando se aproxima o congresso do MPLA, previsto para este ano, no qual João Lourenço – que não quer largar o osso do poder – não aceita claramente múltiplas candidaturas, como se o partido fosse uma herança deixada pelo seu pai, um mero enfermeiro de quinta categoria.

Aqui surge o paradoxo maior. Se no seio da OMA o MPLA não admite sequer duas mulheres a disputar democraticamente a liderança, tal como aconteceu na LIMA, da UNITA, como pode o país acreditar que João Lourenço aceitará múltiplas candidaturas à presidência do partido?

A experiência recente responde por si. No MPLA, a pluralidade é vista como ameaça, não como virtude. Os congressos são desenhados para consagrar líderes, não para escolhê-los. As candidaturas únicas tornaram-se regra, e não excepção. Tudo à toa.

João Lourenço construiu parte da sua imagem política com o discurso da renovação, da moralização e da abertura democrática. Porém, na prática, mantém intacta a velha engenharia de controlo interno. Eliminar concorrência antes que ela chegue às urnas, fabricar consensos e apresentar unanimidades como prova de unidade.

Obviamente, a retirada de Graciete Sungua não foi um acto de liberdade política. Foi um gesto de submissão. Quiçá de ameaças. E a rápida validação do bureau político não foi neutralidade institucional. Foi comando político.

Ao reduzir a eleição da OMA a um ritual sem escolha, o MPLA de João Lourenço enviou uma mensagem clara às suas estruturas e ao país. A alternância interna continua proibida. A competição continua indesejável. E o poder continua fechado. Nem a UNITA, que tanto almeja chegar ao poder em 2027, terá esse prazer.

Se esta é a “democracia interna” praticada numa organização feminina, periférica no organigrama real do partido, que garantias existem de que o próximo congresso do MPLA será diferente? Nenhuma.

Tudo indica que João Lourenço não aceitará adversários. Por isso combate exaustivamente o general Higino Carneiro e companhias. Não por falta de quadros no partido, mas por incompatibilidade estrutural com a própria ideia de disputa.

No MPLA de hoje, a democracia não é um direito. É uma concessão. E só é permitida quando o vencedor já está escolhido.

A OMA, organização que deveria simbolizar a vitalidade e a emancipação política das mulheres angolanas, acaba por reproduzir os mesmos vícios estruturais do partido-mãe. Centralismo, disciplina excessiva e decisões tomadas fora do alcance das bases.

Ao transformar um processo eleitoral num mero acto de ratificação, o MPLA perde uma oportunidade de mostrar que a democracia interna não é apenas um slogan, mas uma prática efectiva.

E, ao fazê-lo, enfraquece não apenas a credibilidade da OMA, mas também o discurso de renovação política que o partido procura projectar para o país.

Lamentavelmente, no fim, resta apenas uma ironia difícil de ignorar. Em nome da suposta “democracia interna”, o MPLA produziu mais uma eleição sem escolha. Luís Moniz 

Imparcial Press

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