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Sexta, 02 Janeiro 2026 22:28

O ano do carinho & A vara mágica antes do voto

2026 surge como mais um capítulo previsível na história política angolana: o chamado ano do carinho. Um ano que antecede as eleições gerais e que, como manda a tradição, transforma políticos outrora distantes em figuras mansas, sorridentes e aparentemente preocupadas com o sofrimento do povo.

É o tempo em que o poder se faz galanteador. Tal como um homem determinado a conquistar uma bela mulher, os políticos recorrem a tudo o que está ao seu alcance para atingir o objectivo final: o voto. Tornam-se atenciosos, generosos, pacientes e até humildes — virtudes raras nos anos fora do calendário eleitoral.

Presume-se que o partido no poder, com participações em várias instituições comerciais de grande peso económico, tenha acumulado fundos suficientes para este momento estratégico. Esses recursos serão, como sempre, usados para criar a ilusão de alívio: uma ligeira descida na cesta básica, alguns subsídios pontuais, promessas de emprego e a súbita “sensibilidade social” do Estado. É aqui que entra em cena a famosa vara mágica — eficaz, mas com prazo de validade. Expira, invariavelmente, no fim da campanha eleitoral.

As torneiras que durante anos estiveram secas, sem nunca terem tido a oportunidade de molhar a vida das comunidades, começarão a jorrar. Não por milagre, mas por conveniência política. Os sobas de ocasião receberão arcas congeladoras, ventoinhas em zonas sem energia eléctrica, motorizadas para “reforço da mobilização comunitária”. Tudo em nome do desenvolvimento local e da proximidade com o povo.

Nesse período, os políticos aparecem charmosos, bem vestidos, sorridentes e sem cara trancada. Cumprimentam todos e todas, abraçam crianças, escutam queixas antigas como se fosse a primeira vez. De repente, há dinheiro para tudo e para todos. O país parece funcionar — mas apenas enquanto duram os comícios e as caravanas.

Ao mesmo tempo, outros actores políticos carregam as baterias para desqualificar o rival, explorando falhas antigas, escândalos conhecidos e erros cometidos ao longo de décadas na relação com a mesma “dama”: o povo. Uma dama cansada, empobrecida, mas seduzida por gestos momentâneos.

E essa dama, corrompida pela necessidade e pela esperança, aceita quase tudo — sem medir as consequências do after the kiss. O beijo passa, o encanto desaparece e a realidade volta a impor- se com mais dureza.

É por isso que 2026 exige vigilância. O carinho eleitoral não pode substituir políticas públicas estruturais, nem gestos pontuais podem apagar anos de negligência, corrupção e desigualdade. O povo precisa lembrar-se de que o verdadeiro poder não está nos carros de campanha, nem nos sacos de arroz distribuídos à última hora.

O poder está nas mãos do povo — e o voto não deve ser um agradecimento pelo carinho temporário, mas um acto consciente de memória, responsabilidade e futuro. 

Por Rafael Morais

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