A Polícia Nacional confirma os elevados casos de denúncia e assegura tratamento e acompanhamento nos processos, enquanto jurista alerta para o cometimento de crimes para quem alinha na exploração e maus tratos deste grupo de mulheres vulneráveis.
Já passavam das duas horas da madrugada quando a equipa de reportagem do jornal OPAÍS abordou a Laura, junto à rotunda da Igreja Católica, no Zango-1. Ela não se importava que o nome fosse divulgado assim, por não ser este conhecido como tal pelas pessoas mais próximas.
"Esse apenas é o meu nome do ‘game'. Só os clientes e as colegas daqui da placa é que conhecem esse nome. Em casa sou tratada por outra pessoa", sublinha Laura no primeiro contacto com o OPAÍS.
Na sequência, sem rodeios, ela lamentou os "dias negros" que têm sido a actividade devido aos constantes esquemas negativos que assombram quem escolheu o asfalto e as esquinas da rua para ganhar a vida.
"Estamos a sofrer muito. As pessoas vêm ter conosco como clientes. Mas, depois de nos usarem, nos batem, roubam o pouco dinheiro que fizemos e ainda nos raptam", desabafou a jovem de 32 anos.
Abusada e abandonada a sua sorte
Quem também tem enfrentado, nos últimos tempos, uma situação de penúria e vários riscos no exercício da sua actividade é Jéssica Paulo, 29 anos. Há mais de três anos no trabalho sexual, a jovem diz ter sido vítima de maus tratos, roubos e burlas praticados por clientes.
Segundo a mulher, o último episódio ocorreu há cerca de um mês, quando aceitou acompanhar um cliente até um local indicado por este, nas proximidades do Kikuxi. Jéssica explicou que, depois de chegarem ao local e manterem relações sexuais, o homem terá mudado de comportamento, ameaçando-a com uma faca, agredindo a e roubando-lhe todos os bens que levava consigo, incluindo o telefone, dinheiro, uma peruca e o par de ténis que calçava.
"Epá, nós já estamos habituadas e eu não tinha medo. Fui com ele; era aí, perto do Kikuxi. Chegamos ao sitio; era um quintal do qual ele tinha chave. Entramos num quarto e fizemos as coisas. Depois, ele ameaçou me, tirou-me tudo, ainda me espancou e abandonou me naquele espaço", relatou.
A jovem disse que só foi resgatada no dia seguinte, depois de algumas pessoas se terem a percebido da situação. Posteriormente, soube que o espaço onde ocorreu o alegado crime não pertencia ao suspeito, que seria apenas gerente do local.
"O caso está na polícia e estamos à procura de uma solução", afirmou.
Ameaçada com arma de fogo
Já Morena Kim, que exerce a actividade nas imediações da TPA Camama, contou ter sido recentemente vítima de espancamento e roubo por parte de indivíduos que se faziam passar por clientes. Relatou que o último episódio ocorreu há cerca de três meses, quando, enquanto aguardava por clientes, foi abordada por um homem que a levou até às proximidades da rotunda da Camama, para um espaço abandonado.
Depois de realizarem o programa sexual no interior do veículo, o homem terá recusado efectuar o pagamento. Quando a jovem tentou reclamar, o alegado cliente ameaçou-a com uma pistola.
Morena Kim disse que conseguiu fugir do local e foi posteriormente socorrida por um grupo de jovens que circulava nas imediações.
"Foi um susto muito grande. Eu quase morri. Nunca tinha visto uma arma na minha vida. Já faço esta actividade há muito e aquilo partiu-me o coração. Hoje, até para sair comum cliente, sinto medo, mas continuo porque é a única actividade que sei fazer", lamentou.
Também no Camama, outra trabalhadora do sexo, identificada como Emma, afirmou já ter sido vítima de agressões e roubos praticados por clientes.
Apesar das situações vividas, a jovem disse que continua na actividade por considera lá a única fonte de sobrevivência.
"Já me bateram muito, já me fizeram tudo, mas até agora resisto. Já perdi o telefone, os clientes já me roubaram o telefone, a peruca e dinheiro, mas ainda assim resisto, porque trabalhar nesta profissão é a única coisa que sei fazer", explicou.
Luanda-Sul por dentro da violência
A equipa de reportagem do Jornal OPAÍS dirigiu-se, no princípio da noite, ao município de Viana, bairro Luanda Sul, concretamente aos 4 Campos, zona conhecida como um dos maiores centros de prostituição no período noturno da referida área.
Lá, encontramos Maura, nome fictício, que trabalha como profissional do sexo há oito anos, dos quais cinco já foram na zona do Plaza, no antigo município do Cazenga.
Segundo essa mulher, de forma tímida e após dificuldades para convencê-la a falar com a nossa equipa, Maura contou que, durante um encontro com um cliente, foi brutalmente agredida após questioná-lo sobre a "resistência sexual" que ele apresentava.
De acordo com a sua abordagem, o cidadão, de aparentemente 55 anos, veio num carro de topo de gama, de cor preta, com um motorista a conduzir e um segurança no banco da frente. Após terem acertado tudo, levou-a, mas, quando lá chegaram, disse que ia pagar mais do que ela cobrava.
Maura aceitou a proposta e ambos mantiveram relações sexuais por muito tempo, mas percebeu que o homem estava a ser muito bruto, resistente e demorava muito.
"Então, lhe perguntei se bebeu alguma coisa, ficou chateado e começou a me bater. Bateu com muita força e me inflamou parte do rosto até ao ponto de eu não saber como podia voltar para casa, uma vez. que não sabem que eu trabalho nisso", relatou.
Depois de a agredir, segundo Maura, o homem disse que, por causa do abuso, já não iria pagar-lhe. A trabalhadora de sexo afirma que ficou com medo de insistir, por considerar que se tratava de uma pessoa influente.
Questionada sobre uma possível queixa-crime, Maura respondeu que ficou com medo de ser julgada e de não ser levada a sério.
"Fiquei com medo de ser julgada e também não sabia se seria levada a sério", justificou.
Outra interlocutora ouvida por este jornal, que também manteve o nome no anonimato, contou ter passado por uma situação envolvendo um cliente com quem manteve uma relação.
Segundo a jovem, depois de se envolver com o homem, este gostou dela e pediu-lhe que abandonasse a actividade e passasse a ser apenas para ele. Ana diz que lhe mentiu, afirmando que aceitaria, mas continuou a trabalhar nos Quatro Campos.
Algum tempo depois, o homem descobriu que ela continuava a trabalhar no local. "Fomos no nosso lugar de sempre e recebeu-me tu do que tinha me dado, como tele fone, parou de pagar a minha renda e me chamou de lixo", conta.
Distante do Luanda-Sul, concretamente na Vila de Viana, o Jornal OPAÍS ouviu Ana, de aproximada mente 26 anos, que contou que já foi roubada por um cliente depois de ter saído por alguns instantes para ir à casa de banho.
"Após o acto, fui para a casa de banho e ele pegou no meu telefone e no dinheiro que tinha me dado e fugiu. Me senti humilhada naquele momento", lamentou.
Ana também não apresentou queixa porque não tinha muitos dados sobre o homem e sentia vergonha de explicar às autoridades como o tinha conhecido.
"Gostaria que, quando uma mulher é vítima de um crime, pudesse denunciar sem ser culpabiliza da pela profissão que exerce. O crime continua a ser crime", voltou a lamentar.

