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Luaty Beirão: "João Lourenço está a comportar-se como aqueles que eram vistos como terroristas"

Luaty Beirão: "João Lourenço está a comportar-se como aqueles que eram vistos como terroristas"

Diz que cada vez gosta menos da palavra "ativista". Todavia, é quase sempre com ela que o apresentam.

Luaty Beirão esteve em Portugal na segunda-feira para protagonizar, com Pedro Abrunhosa, a tertúlia "Pode uma canção fazer uma revolução?", no âmbito do festival Sons em Trânsito, em Aveiro. Chegou ao hotel à uma da manhã, depois de dar autógrafos e responder a perguntas do público sobre o processo que o levou à cadeia e sobre a nova presidência angolana. Falou com o DN por telefone.

Que sinais testemunham a mudança do presidente João Lourenço?

Há sinais óbvios. Mas também ainda é cedo para nos precipitarmos para conclusões finais. O homem ainda nem esteve 100 dias lá. Pelo que fez nestes 50 e poucos é alucinante, é incrível, não contava que a coisa fosse tão rápida. Ainda estamos na formação da equipa, mas há indícios. A imprensa pública começa a ser um pouco mais aberta, mais plural, já se convidam dirigentes da oposição para comentar as notícias, já se fala em tom crítico de obras malfeitas, mesmo no próprio governo. O facto de eu ter conseguido lançar o meu livro, é algo que seria muito difícil há uns meses atrás.

O ambiente que se vive no quotidiano, nas ruas de Luanda, já é outro?

Há um renovar de esperança, uma euforia coletiva, que eu gostava que fosse um pouco mais contida, mas que é compreensível, porque foram muitos anos habituados à falta de espaço para vozes dissonantes falarem. Quem está em Luanda sente que há um tom de alegria, de euforia, as pessoas conversam com esperança que alguma coisa real e palpável possa vir a acontecer. Acho que esse clima é bom, temos é de ser prudentes e não partir logo para conclusões de que o país muda automaticamente com exonerações. O facto é que estamos praticamente falidos, não se conseguem pagar salários a funcionários públicos. A crise e as dificuldades para gerir o país são gritantes, mas ainda assim, apesar de toda a situação, as pessoas conseguem sentir que há uma luz ao fundo do túnel.

Como é que vê o seu papel neste tempo de Angola que agora começou?

Para já fico satisfeito de não ter de ser associado permanentemente a alguém que simplesmente procura coisas para discordar. Eu acho que havendo esta abertura anunciada as pessoas que têm ideias e que são críticas em relação ao que esteve a acontecer até agora têm este dever de dar o benefício da dúvida, de monitorar, e de testar estes novos limites. Como? Apresentando as ideias que nós temos, a nossa avaliação, as nossas propostas enquanto agentes da sociedade civil, e ver que tipo de abertura, de absorção existe, ver que diálogo se estabelece.

De que forma o vai fazer?

De todas as formas ao meu alcance. Se tiver ânimo para fazer música - e tenho tido mais vontade ultimamente - essa será uma das formas. Faço parte de uma associação recentemente formada, a Handeka, esta será outra das formas, elaborando, se sentirmos que existe abertura para isso, projetos, estruturando ideias de como pode ser viável investir algum dinheiro do Estado ou mesmo captar investimento estrangeiro para pôr em prática ideias concretas que beneficiem a sociedade. [Mas] É preciso haver abertura e transparência. Podemos sugerir muitas coisas, mas se o Estado não diz quanto dinheiro tem, que dinheiro tem nos cofres, fica complicado podermos sugerir como usá-lo.

Escreveu no Facebook: "João Lourenço acaba de se alinhar à categoria de "desobediência civil" ao ignorar completamente o decreto (com força de lei) do seu já esquecido antecessor, que o proibia de mexer nas chefias militares por 8 anos." As exonerações a estas chefias foram mais inesperadas do que a de Isabel dos Santos da Sonangol? "Desobediência civil" é uma expressão forte.

Não sei se é mais inesperado, não quero pôr as coisas nesse tipo de distinção. A partir do momento em que ele exonerou a Isabel dos Santos já não há muita coisa que possa surpreender, já estabeleceu o tom da conversa com a ala que a própria Isabel quer chamar a ala dura, e já mostrou que está aí para limpar a casa e decorá-la do jeito dele; mas obviamente que aqui há um outro elemento a ser avaliado: que tipo de sinal é que ele envia a nível do respeito pelas leis, por mais injustas que elas sejam. Houve decretos [de José Eduardo dos Santos] a serem exarados dias antes da tomada de posse. Todos estes decretos deixaram a população algo escandalizada, portanto deviam ser considerados inválidos, só que não cabe a ele considerá-los inválidos, e passar por cima deles. Eu tenho mais um espírito anarca e acho que como ativista - cada vez menos gosto de usar esse termo -, como cidadão ativo, obviamente que sou algo adepto da desobediência civil, não sei se é algo que um presidente deva praticar. Como cidadão estou meio dividido, porque aplaudo a desobediência a uma lei ridícula, completamente injusta e que claramente vai limitar o seu exercício do poder, mas como defensor da legalidade, acho que deveria dar sinais de que a partir de agora por ser presidente não passa por cima do que estava escrito. Não deixa de ser um ato de desobediência, de abuso de poder no caso dele. Portanto, "desobediência civil" até seria mais como um elogio, é uma brincadeira, não é? Ele está a comportar-se como aqueles que até então eram vistos como terroristas, que desobedecem e incumprem leis que consideram injustas.

Sente que o que lhe aconteceu a si e aos outros ativistas tem peso nesta mudança em Angola?

Eu acho que isso cabe a quem avalia cronologicamente os factos, ver que papel podemos ter jogado. Não tenho esta vaidade, a única vaidade que me sobra é mais um orgulho que, independentemente da proporção que tenhamos jogado com a nossa luta, o orgulho é ter feito parte dela, ter feito algo, deixado o meu grão de areia, e ter feito o que era possível, o que era capaz de fazer. Se isso ajudou de alguma forma? Tenho a certeza que sim, não sei em que proporção, também não me interessa, porque não se faz isso pela glória, faz-se isso pela urgência.

Perfil

Nasceu em 1981 em Luanda. Tem nacionalidade luso-angolana. É licenciado em Engenharia Electrotécnica pela Universidade de Plymouth, Reino Unido, e em Economia e Gestão pela Universidade de Montpellier, França. Como rapper é conhecido como Brigadeiro Mata Frakuxz ou Ikonoklasta. Foi um dos 17 ativistas detidos em junho de 2015 em Luanda e condenados pela justiça angolana por "rebelião e associação de malfeitores". Foram depois abrangidos por uma amnistia geral. No ano passado editou o diário que escreveu na prisão no livro Sou Eu Mais Livre, Então: Diário de um Preso Político Angolano

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