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A crise migratória e a hipocrisia europeia

A crise migratória e a hipocrisia europeia

Procurar por melhores condições de vida é o lema de todo ser humano. O rico quer ter sempre mais e melhor e o pobre quer ter alguma coisa. E mais importante ainda, todo ser humano quer paz. ‟Paz”, uma palavra que não existe no dicionário de centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo. E muitas dessas pessoas, têm a Europa como porto seguro.

Por Ulisses Lufundisso

Diariamente somos inundados com notícias sobre naufrágios e resgates de migrantes e refugiados a caminho da Europa, na sua maioria oriundos do continente africano. Mesmo com muitas mortes pelo caminho, o desejo de chegar a ‟terra prometida” não diminui. Mas pior que isso, é ver dirigentes europeus em guerras de palavras sobre como lidar com esses visitantes (in) esperados em seu território enquanto navios abarrotados de ‟gentes” ficam a aguardar em alto mar pelo país europeu ‟bom samaritano” para os acolher. O sentimento nacionalista tem tomado conta dos grandes decisores políticos europeus, e a questão da imigração tem sido o maior ponto de rotura entre os membros da UE.

Os europeus estão muito preocupados com as consequências e nem querem saber das causas, ou sabem-na e fingem nem saber. Tais migrantes e refugiados, são maioritariamente oriundos de países como a Líbia, Mali, Somália, Eritréia, Níger, Nigéria, Síria, Afeganistão, Iraque ou Iémen. Países que atravessam situações gritantes de várias ordens, onde o caos domina. Caos que surgiu com a prepotência norte-americana com a ajuda dos seus fiéis amiguinhos europeus em querer ‟democratizar” certos países e também com as atitudes gananciosas de certos líderes africanos alimentada pelos europeus. Os europeus agora não sabem lidar com a crise migratória, mas foram eles os primeiros a levantar a voz e apoiar os norte-americanos na conspiração para derrubar Muammar Khadaffi. Antes da famosa primavera árabe, a Líbia era um dos países mais estáveis de África e do Médio Oriente, com uma economia em franco crescimento, uma qualidade média de vida acima de muitos países do hemisfério sul. Mas claro, o país era dirigido por um ditador e assassino que tinha contas a acertar com os norte-americanos e europeus. Resultado: Khadaffi morto, Líbia caiu numa algazarra tremenda, onde as milícias que combateram contra o Khadaffi e alguns membros do atual exército tornaram-se promotores do tráfico de seres humanos e promovendo a ida de navios e pequenos barcos em condições desumanas cheios de migrantes para a querida Europa. Isso para não falar do escândalo divulgado em 2017 pelo canal BBC sobre o tráfico de escravos em pleno Séc.XXI na Líbia. Mesmo sabendo quem são os culpados, nada foi feito. E recorde-se que a Líbia é atualmente o principal ponto de partida de milhares de migrantes em direção ao velho continente.

E voltando-se um pouco para o médio oriente, eu pergunto: de que adiantou levar o terror a Síria com o intuito de derrubar Bashar Al-Assad? A guerra na Síria está praticamente terminada, e Al-Assad todo sorridente agradecendo aos seus aliados Russos e Iranianos. A Europa toda envergonhada pelo apoio cego que prestou ao seu aliado EUA. Somando os danos provocados pela guerra civil síria mais as ações do Estado Islâmico, estimam-se que pelo menos 1 milhão de pessoas tenham abandonado o país, a sua maioria em direção a Europa. Estado Islâmico esse que resultou do caos gerado no Iraque com a intervenção norte-americana e europeia para derrubar Sadam Hussein.

E em África as políticas destrutivas dos líderes africanos, apoiadas pelos europeus, têm conduzido muitos países a situações de pobreza extrema, onde as mortes por má nutrição ainda são elevadas. O crescente número de grupos extremistas islâmicos também tem sido preponderante para a migração em massa das populações.

Mas os migrantes não são apenas africanos e oriundos do médio oriente, também se contam indivíduos oriundos do Bangladesh e Mianmar. Dois países assolados pela pobreza extrema e no caso de Mianmar em particular, ao longo dos últimos anos tem-se assistido ao genocídio da minoria Rohingya. E como sempre, a comunidade internacional faz de conta que não se passa nada. Onde também não passa nada é no Iémen, onde as acções destrutivas da Arábia Saudita na sua guerra privada contra o Irão tem levado milhares de iemenitas a abandonarem o país. E como é evidente, os Sauditas são amiguinhos dos europeus e norte-americanos, por isso, ninguém fala do que se passa no Iémen.

Podia citar n exemplos de como a hipocrisia europeia conduziu a essa crise migratória. Durante largos anos, foram semeando crises, guerras e caos ao redor do mundo e agora esses problemas estão a voltar para eles em forma de migrantes e refugiados. E como o mundo todo está de olho, não podem simplesmente virar as costas. A solução para esse problema, não passa pela redistribuição desses migrantes pelos vários países, isso ficou provado pela breve política de portas abertas aplicada pela Alemanha de Angela Merkel, onde tal situação suscitou ainda mais a vontade de milhares de migrantes a se dirigirem para Europa. Portanto, a solução, no contexto atual, é um tanto quanto utópica. Ela passa por tornar seguro, estável e próspero os países de origem desses migrantes. Com paz e melhores condições de vida, as pessoas pensariam duas vezes antes de decidirem arriscar suas vidas pelos mares em barcos precários. Mas como disse, é uma solução utópica, pelo menos para os dirigentes europeus e as elites corruptas e egoístas de África e Ásia.

Ulisses Lufundisso, licenciado em relações internacionais.

Last modified onQuarta, 04 Julho 2018 14:56
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