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Memórias do 27 de Maio de 1977: A detenção de Reginaldo Silva

Memórias do 27 de Maio de 1977: A detenção de Reginaldo Silva

Antes de falar do Reginaldo Silva como uma das vitimas dos acontecimentos do 27 de Maio de 1977 , com quem partilhei a mesma cela ( F) , um amigo que sempre que descesse aquela calçada para ir ao jornal de Angola onde trabalhava , nunca se esquecia em dar uma espreitadela na Neográfica empresa que foi para mim uma espécie do último refúgio depois de ter saído da cadeia , ter abandonado farda e nunca mais quis confiança com a Contra Inteligência Militar .

Por Fernando Vumby

Ainda assim não me mataram sabe Deus , se calhar por ter conseguido logo depois através dumas cambalhotas uma bolsa de estudo para antiga RDA , onde fiz o curso técnico de artes gráficas , mas este é assunto para outras cronicas , não me levem á mal manos está tudo sob controle , vai ser tudo publicado sem tabú e nem papas na língua.

A incansável tia do Reginaldo Silva

Naquela altura os riscos que os nossos familiares corriam para se aproximarem ate ao portão da cadeia a procura de alguém , não era menos perigoso do que , la dentro da cadeia onde estávamos na expetativa de cada um de nós esperar pela sua vez para ser morto , pois conhecem-se casos de irmãos que foram a procura dos seus irmãos e acabaram presos , sobrinhos que foram á procura dos seus tios e acabaram também eles mesmos mortos.

Por isso , não seria justo falar aqui só mesmo do Reginaldo Silva que vivia na altura os piores momentos da sua vida sem realçar aqui a coragem daquela tia dele que superou dores , transpôs todos os obstáculos inclusive os xingamentos mal criados daquele amontoado de carcereiros na hora em que cumpriam ordens superiores ou agindo por iniciativa própria para nos impedirem as visitas.

Aquela senhora era corajosa ao contrário de algumas famílias , como no meu caso pessoal com tantas irmãs que tenho muitas delas famosas e de relação já muita avançada na altura com os barbudos e barrigudos auto intitulados de comandantes naquele tempo , e ainda assim quase morria na cadeia sem uma única visita tirando a única em dois anos da minha mãe que depois veio falecer como consequência da minha prisão.

Essa mania de algumas pessoas se preocuparem só mesmo com quem está sofrendo por qualquer razão , virando toda sua atenção exclusiva e simplesmente para estes , ignorando completamente os sacrifícios daqueles que se preocupam por estes , é mau..

Pois naqueles dias muitos dos nossos familiares também sofreram tanto pela nossa ausência , nosso sofrimento e acredito que muitos ate ainda mais do que nós próprios os presos mesmo estando essas pessoas fora da cadeia , por isso julgo importante valorizarmos essas pessoas que sofreram também por nós e conosco mesmo fora da cadeia como foi no caso daquela tia do Reginaldo e outras pessoas que merecem uma palavra de agradecimento pelo que passaram e fizeram por nós..

O Reginaldo Silva o seu calção de ganga azule

Quando o Reginaldo Silva entrou na cela ( F ) cadeia de S.Paulo , vitima do seu próprio diretor na altura o escritor Costa Andrade também conhecido por Ndundunma Wé Lipi , embora com o seu rosto ainda de menino , pois éramos tão jovens , entrou como se fosse um grande artista que queria cativar os outros presos políticos , o que conseguiu em tão pouco tempo com o seu modo de ser humilde , simples , simpático e pessoa de fácil relacionamento com os seus semelhantes .

Era uma pessoa muito concentrada , atenta e com olhos que já pareciam treinados mesmo só para ver coisas dignas de apontamento , pois tinha um farejo muito apurado dos acontecimentos e noticias , nas suas mãos nunca faltou restos de papel onde anotava quase tudo e depois os embrulhava como se fosse um bloco sem valor para iludir os olhares curiosos dos carcereiros nos dias em que nos surpreendiam para fazerem revista .

Mesmo não tendo uma caligrafia tão bonita como a minha ( ahhhh ahhhh ahhh ) o Reginaldo as vezes quando estava sozinho escrevendo alguma coisa , dava-nos a sensação de quem estivesse a conversar com a caneta e das poucas vezes que dei uma olhada nos seus apontamentos notei que já dominava a ortografia e a gramática portuguesa tão bem como poucos jovens ainda na flor do jornalismo .

O seu histórico calção azule de ganga

Espero que o Reginaldo ainda tenha como recordação aquele seu calção de ganga azule , pois se o mesmo falasse contaria muita coisa que o Reginaldo ainda não contou ate hoje , sobre o 27 de Maio de 1977 , da nossa vida naquela cela ( F ) e do medo que tomou conta do Carlos Macedo surrado por Osvaldo Inácio que depois ainda o ameaçou com essas palavras " Foste tu , quem mandou fuzilar o Sotto Mayor no campo da Académica "

Não faz tempo eu mesmo tentei somar quantas vezes lhe vi vestido com aquele calção que acredito ter sido a peça de roupa que mais tempo lhe acompanhou enquanto esteve detido mas sinceramente perdi a conta.

A primeira vista para quem não lhe conhecesse poderia acreditar que o Reginaldo fosse um menino mimando e sem resistência para suportar o peso daquela situação tão dura para muitos de nós ainda jovens que éramos na altura , mas nada disto .

Repito ; quando o Reginaldo entrou para a cela ( F ) o fez como se fosse um artista que queria cativar os outros presos políticos , o que conseguiu em tão pouco tempo com o seu modo de ser humilde , simples , simpático e pessoa de fácil relacionamento com os seus semelhantes

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