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Angola + Portugal = ?

Angola + Portugal = ?

A 23 de Janeiro deste ano, Orlando Figueira, acusado de corrupção, declarou em tribunal: “Onde se lê Manuel Vicente na acusação, devia ler-se Carlos Silva.” Nesse dia, a acusação de que o ex-vice-presidente de Angola tinha corrompido o procurador português caiu por terra.

Por Celso Filipe

A 10 de Maio deste ano, o Tribunal da Relação de Lisboa aceitou o pedido das autoridades angolanas e remeteu o processo Manuel Vicente para Luanda.

Claro que depois desta decisão se carpiu a falta de coragem de Portugal, a subserviência em relação a Angola e afins. Há um indisfarçável sentimento de superioridade moral em tudo isto. Os poderes angolanos, conhecedores desta circunstância, têm vindo a aproveitar-se de Portugal para dirimir os seus conflitos. Nada melhor do que alguém emergir em Lisboa como suspeito para ser marginalizado em Luanda. É um jogo antigo, praticado com esmero, pelas várias camadas da elite. E depois do "irritante" Manuel Vicente, nada garante que não chegue outro "irritante" qualquer à justiça portuguesa, sob a forma de denúncia anónima. Antes pelo contrário. A probabilidade é elevada.

O problema é outro. Angola e Portugal têm de deixar de condicionar as relações bilaterais por estas circunstâncias. Sobretudo Angola. Naturalmente, a transferência do processo Manuel Vicente para Angola, sendo uma decisão judicial, é também uma vitória política de João Lourenço. Mas é apenas uma flor na lapela.

Os reais problemas de Angola não se encontram nas putativas queixas feitas em Portugal, mas sim de natureza económica. Angola está refém de uma dívida colossal à China, o acesso ao crédito externo é difícil e caro e a dependência do petróleo é um nó górdio que nunca mais se desata.

O facto de o Presidente de Angola ter recebido, fora da agenda oficial, o ministro da Defesa português, Azeredo Lopes, que se encontra de visita ao país, é um indicador positivo. Angola precisa de Portugal para disseminar no exterior uma mensagem de mudança, condição essencial para captar investimento estrangeiro e obter financiamento externo. Portugal precisa de Angola enquanto mercado, mas também como país de acolhimento de milhares de expatriados portugueses. O Jornal de Angola, no seu editorial de 15 de Maio, diz que Portugal e Angola "inauguram um novo ciclo". É verdade. Falta agora que as duas partes esqueçam o acessório e se concentrem no essencial, para o transformar num ciclo longo. Jornal de Negócios

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