A atmosfera festiva e reflexiva que se previa para a iniciativa política deu lugar a um cenário de apreensão, com as forças de segurança a cercarem o perímetro da actividade, gerando atritos entre os agentes e militantes que procuravam aceder ao recinto principal.
Segundo relatos de participantes presentes no local, efectivos da Polícia Nacional terão recorrido ao lançamento de gás lacrimogéneo para dispersar militantes e simpatizantes da UNITA, provocando momentos de pânico e obrigando várias pessoas a abandonar o espaço onde decorria o acto político. Até ao fecho desta edição, a Polícia Nacional ainda não havia divulgado qualquer versão oficial sobre os acontecimentos.
Na sua página oficial, o presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, denunciou um alegado atentado contra o deputado e secretário-geral da Juventude Unida Revolucionária de Angola (JURA), Nelito Ekuikui. "Agentes da Polícia Nacional atentam contra a vida do deputado e secretário-geral da JURA, Nelito Ekuikui, que escapa ileso do ataque. Uíge acorda com a liberdade dos cidadãos limitada", escreveu o líder da maior força da oposição parlamentar.
As denúncias surgem num contexto de crescente preocupação entre dirigentes e militantes da UNITA, que afirmam estar a ser alvo de alegadas intimidações, ameaças e outras formas de pressão política. A presença das principais figuras do partido, incluindo Adalberto Costa Júnior, conferiu maior sensibilidade ao evento. A UNITA é actualmente a maior força da oposição parlamentar, na Assembleia Nacional.
Também Nelito Ekuikui reagiu aos acontecimentos, lamentando aquilo que classificou como "intolerância política" e afirmando não encontrar outra explicação para a actuação policial senão a de "um partido-Estado que quer usar as forças de ordem e segurança para competição política".
O dirigente da JURA advertiu ainda que o partido não voltará a adoptar a mesma postura de contenção assumida durante as eleições gerais de 2022. "Já não vai voltar a acontecer o que aconteceu em 2022, em que apelámos o povo à serenidade. Ninguém vai apelar o povo à serenidade. O MPLA vai exactamente encontrar o que procura", declarou, acrescentando que "ninguém tem sangue de barata".
Segundo fontes ligadas à UNITA, o clima de tensão começou ainda na sexta-feira, quando militantes do MPLA terão colocado uma bandeira do partido junto ao secretariado provincial da oposição, seguindo posteriormente para o município do Negage, onde decorre o Acampamento Nacional da JURA. As mesmas fontes alegam que o local da actividade juvenil foi posteriormente invadido por militantes do partido no poder.
De acordo com os relatos recolhidos, os militantes do MPLA, alegadamente liderados por Virgílio Cordeiro João, antigo secretário do Departamento de Informação e Propaganda (DIP), terão organizado uma actividade política nas proximidades do acampamento da JURA. Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra um homem identificado como Virgílio João a afirmar que "quem abusa o MPLA nunca terá paz", enquanto exibe uma camisola com a inscrição "EME-27" e apela à mobilização de militantes para uma actividade relâmpago no Negage. A autenticidade e o contexto integral das imagens não foram confirmados de forma independente.
As alegadas acções têm sido criticadas por académicos e cidadãos locais, que as classificam como manifestações de intolerância política incompatíveis com os princípios do pluralismo democrático. Algumas críticas estendem-se ao Governo Provincial do Uíge, sendo referido, sem confirmação oficial, um eventual beneplácito das autoridades provinciais às acções denunciadas.
Cidadãos ouvidos pela nossa redacção afirmam que a crescente influência de Virgílio João na mobilização política do MPLA na província tem contribuído para o agravamento das tensões entre os dois principais partidos. Segundo estas fontes, o seu nome já havia sido associado a incidentes registados anteriormente no município de Sanza Pombo, onde alegadamente militantes do MPLA terão tentado impedir uma actividade política da UNITA. Os mesmos relatos indicam ainda que, durante os incidentes no acampamento da JURA, militantes da UNITA terão sido detidos pela Polícia Nacional, enquanto os alegados invasores não foram alvo de qualquer intervenção. Estas alegações permanecem sem confirmação oficial.
Um ancião residente no Uíge, que pediu anonimato por receio de represálias, manifestou preocupação com a escalada da tensão política na província. "Instalou-se um clima de guerra que podia ser evitado", afirmou, defendendo que as divergências políticas não devem transformar-se em conflitos entre cidadãos. "Todos somos da mesma terra e devemos preservar a paz", apelou. Até ao momento, nem a Polícia Nacional, nem o Governo Provincial do Uíge, nem a direcção provincial do MPLA reagiram publicamente às acusações feitas pela UNITA.

