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Segunda, 28 Julho 2014 09:41

Luanda a cidade mais cara do mundo - principais causas e consequências.

No passado dia 10 de Julho do ano corrente, os principais Jornais e Imprensa Internacional publicavam aquele que foi o resultado do Estudo efectuado pela Consultora Internacional Mercer (2014)2, sobre as principais cidades do Mundo com um custo de vida elevado, o estudo teve como objectivo fulcral ajudar os Governos e grandes empresas multinacionais a avaliar o montante dos prémios a dar aos seus funcionários que estão em mobilidade internacional (ibid.).

Notícia tal que não nos deixou estupefactos, pois a quase dois anos a Cidade de Luanda vem fazendo parte das 5 cidades mais caras do Mundo.

Facto este que não agrada aos Angolanos e de maneira nenhuma agrega valor para a Economia Angolana, a despeito os níveis de crescimento alcançados ultimamente serem animadores, enfim, “contra facto não há argumentos”, assim diz um velho adágio popular.

De acordo do referido estudo (ibid.) entre os principais factores utilizados para estudo e respectiva classificação constam os custos relacionados com: Hospedagem, serviços de transporte, alimentação, entretenimento, segurança, vestuário e electrodomésticos.

PRINCIPAIS CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

O conflito armado que o país viveu durante quase 3 décadas, vem sendo apregoado como o principal influenciador da degradação de grande parte do tecido empresarial, industrial e infraestrutural.

A elevada taxa de inflação e escassez de principais bens e serviços também têm corroborado para tal facto, visto que as taxa de inflação de Angola embora conhecer uma retração de dois dígitos (12%) para um dígito (8-9%) ainda têm uma forte incidência nos principais bens e serviços comercializados no País e tendo em atenção que grande parte dele é importado.

Crescimento Populacional vs Hospedagem

A densidade populacional que Luanda regista, foi também motivada em grande parte pelo êxodo populacional, visto que a cidade capital era e é vista como o principal polo de atracção, devido a considerável assimetria registada entre as demais cidades, a capital do pais ficou a ser conhecida como o “el dorado” com aberturas ao investimento e a facilidade na obtenção de renda, em função dos diversos serviços e actividades que podem ser desenvolvidos grande parte deles por actividades informais.

Tal como referenciou Lopes (2007:39)3, “O processo de crescimento acelerado da economia informal de Luanda tem sido a resultante da acção conjugada de diversos factores: um fluxo migratório prolongado e intenso em direcção à capital angolana, em consequência do conflito militar prolongado; os efeitos das distorções geradas pelo sistema centralizado e estatizado de organização económica, facilitadores de uma relativa profusão de instrumentos/mecanismos/circunstâncias susceptíveis de permitirem a apropriação de rendas”;

Enquanto a população foi conhecendo um crescimento ascendente, as principais infraestruturas básicas mantiveram constantes, ou seja, não acompanharam a mesma curva tendencial. No entanto, o forte crescimento demográfico foi constituindo um obstáculo ao desenvolvimento visto que a produção não acompanhou o crescimento ou aumento da população, como consequência, inicia–se um processo de pressão da população sobre os principais espaços habitacionais, a terra valoriza –se e as habitações tornam –se raras  em face a demanda.

Outrossim, a estabilidade política, a reconstrução do país e  as elevadas taxas de crescimentos alcançadas, serviram como um chamariz de atração de mão de obra estrangeira desempregada e a procura de novas oportunidades em escala massiva que acabaram também por contribuir neste aumento da densidade populacional em Luanda.

Como consequência, os preços das habitações T2, T3, etc.. ganham um ajuste em função da pressão da variável procura, os apartamentos localizadas em zonas nobres duplicam e triplicam os preços. O surgimento de novas urbanizações e arquiteturas, mormente desenvolvidas por estrangeiros acabam por oferecer serviços a preços exorbitantes em função dos custos e encargos relacionados com: água, luz, mão de obra expatriada qualificada, etc, etc... e também devido a demanda.

Serviços de Transporte

A malha rodoviária herdada em grande parte do colono, sofreu alguma evolução, mais não foi capaz de fazer vasão ao crescimento do número de viaturas resultantes do aumento da densidade populacional.

As estradas secundárias e terciárias degradas e algumas em mau estado de conservação têm contribuído para que o número considerável de viatura utilizem as principais vias para circular.

A obras, e a requalificação e reabilitação de algumas vias em muitos dos casos com prazos longos e inacabadas, têm contribuído também para o agravamento em grande parte dos casos do engarrafamento que se regista.

O transporte Público deficitário, e sem estrada específica para transitar, dá azo ao surgimento de uma nova frota de veículos privados que passaram a destacar –se na transportação de pax4 e prestação de serviços públicos.

Como Consequência, eclodiu um novo serviço personalizado, aonde os preços em função da qualidade e conforto acabam por ficar ao olho da cara, e tendo em conta o tráfego normalmente congestionado, o preço do taxímetro acaba por ser alto.

Alimentação, Vestuário e Electrodoméstico

Com o tecido Industrial em reconstrução e sendo uma política estrutural, vai levar ainda muito tempo, a alternativa de Angola continuará a ser ainda por um bom período de tempo a importação.

De acordo o Ministério da Industria (2013)5, o “período, de 1986 a 1994, é marcado por uma queda e quase desaparecimento do sector da indústria transformadora angolana, tendo como principais causas a degradação do tecido industrial angolano e das principais infraestruturas, registando-se a redução do volume de importação das matérias-primas, bem como fracos investimentos na melhoria e modernização no respetivo sector, em face da degradação técnica registada nos equipamentos e em grande parte das indústrias”.

Mais de 60% dos produtos que Angola consome vêm o exterior. Com o agravamento das taxas Alfandegárias, custos de transportação e pagamentos de impostos e emolumentos alfandegários, grande parte destas mercadorias entram a um preço alto.

Como Consequência, e visto que o comerciante não quer perder, no cálculo da formação do preço incorpora os custos relacionados com a importação da respectiva mercadoria, logo, para o consumidor final grande parte dos produtos alimentares, vestuário e eletrodomésticos são comercializados a preços, duas ou três vezes comercializados em outras cidades que em grande parte dos casos produzem tais bens/produtos.

Entretenimento e Segurança

O entretenimento em Luanda é caro, visto que existem poucos lugares que oferecem estes serviços com a qualidade que se exige.

No entanto os poucos que o fazem e fazem bem, praticam a um preço elevando, pois em muitos dos casos em função ou aumento da variável procura, são obrigados a subir o preço também como uma política de excluir uma determinada camada ou franja da população e dar acesso a outra com rendimentos médios e altos com forte capacidade de consumo, para além de poderem desfrutar ou se entreter.

A segurança é privada, embora exista a pública mais a mesma encontra –se confinada apenas para servir ou garantir a segurança de lugares estratégicos e figuras públicas de realce.

Como Consequência, o entretenimento e a segurança por serem desenvolvidos em grande parte por privados acabam por ter em conta o lucro que é o fim, visto também que grande parte dos inputs quer para  um e outro, serem importados, normalmente os serviços são vendidos tendo em atenção a estes aspectos, que quando comparado com as demais cidades do Mundo afora acabamos sempre por ganhar.

1 Mestre em Administração de Empresas; Consultor Empresarial e Técnico Oficial de Contas.

2 Informação disponível em: http://www.mercer.com/newsroom/cost-of-living-survey.html

3 Lopes, Carlos M. Comércio informal, transfronteiriço e transnacional: que articulações? 2007.

4 Linguagem vulgarmente atribuída aos clientes dos taxis que se dedicam a transportação de passageiros.

5 Plano de Re-industrialização do Ministério da Indústria de Angola, 2009 – 2013.

Por Jonísio C. Salomão

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