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Terça, 02 Junho 2026 20:26

Silêncio estratégico de João Lourenço mantém incógnita sobre a sucessão presidencial

A indefinição em torno da sucessão no MPLA, que para alguns observadores pode representar um factor de instabilidade, continua a revelar-se uma vantagem estratégica para João Lourenço. Ao evitar pronunciar-se sobre o futuro da liderança do partido e do Estado, o Presidente da República mantém o controlo da agenda política e reduz o espaço para movimentações prematuras entre potenciais sucessores.

Nos últimos meses, vários episódios envolvendo figuras ligadas ao círculo político de João Lourenço e ao MPLA têm dominado o debate público. Embora tenham origens distintas, muitos destes acontecimentos são interpretados como parte de um ambiente de crescente pressão política em torno do actual Chefe de Estado, numa altura em que persistem as expectativas sobre as decisões que poderão influenciar a sucessão na liderança do partido e do país.

O silêncio que JLO tem mantido relativamente à figura que indicará para seu sucessor no Palácio da Cidade Alta (residência oficial do chefe de Estado), incomoda transversalmente tanto aqueles que esperam obter a sua bênção, como aqueles que sabem que não a terão, mas ficam assim tolhidos nos movimentos visto não poderem criticar uma não existência. A própria oposição, sobretudo a UNITA (União Nacional para a Independência Total da Angola) fica estrategicamente manietada e com dificuldades em tomar a iniciativa.

João Lourenço sabe que tudo o que disser pode virar-se contra ele, no sentido em que entra no domínio da interpretação, e neste contexto tem adotado como estratégia um dos ensinamentos de Sun Tzu, o célebre general chinês: "Derrotar o inimigo em 100 batalhas não é a excelência suprema; a excelência suprema consiste em vencer o inimigo sem ser preciso lutar."

Graças a uma eficaz rede de informações, JLO consegue perceber a origem dos ataques.

Graças a uma eficaz rede de informações, JLO consegue perceber a origem dos ataques e, em paralelo, identificar aqueles que realmente estão ao seu lado. Ainda que limitado, na medida em que não se pode recandidatar à Presidência da República, João Lourenço continua a deter o poder absoluto e a ser temido devido a este estatuto. E tem ainda como referência o processo de saída de José Eduardo dos Santos, em que ele próprio foi interveniente, o qual serve de alerta para os perigos de perder toda a influência de uma só voz.

Ainda assim, esta rede apresenta uma falha, na medida em que limita o contacto de João Lourenço com a realidade e aumenta a probabilidade se ser manipulado por essa mesma rede.

O vazio é aproveitado para muitos ajustes de contas, concretizados por via de anonimato e aproveitando uma frágil cultura de verificação de factos. Esta prática, não sendo penalizada, tem-se mantido ao longo dos anos com um instrumento eficaz para a execução de vinganças.

Um exercício de paciência

Este jogo exibe ainda duas realidades. Uma delas é o espartilho em que se encontra a oposição fulanizada na UNITA, estando reduzida a um papel de ator secundário no filme das eleições, gerais pela simples razão (e esta é a segunda realidade) de ainda ninguém conceber que o MPLA possa ser derrotado em 2027.

A incerteza, que alguns podem ver como um problema para o MPLA, é um trunfo para o atual líder do partido e do país. Mais adiante pode assumir-se como um entrave, na medida em que deixará feridas abertas, todavia, no atual momento constitui uma ferramenta efetiva de controlo dos seus putativos sucessores e respetivas fações.

Enquanto mantiver o silêncio, João Lourenço terá sempre vantagem, até porque as dinâmicas partidárias em Angola são muito diferentes das que se verificam, por exemplo, em Portugal, o mesmo se aplicando relativamente à cobertura e pressão mediática sobre os protagonistas políticos. Neste exercício de paciência ganha quem melhor souber esperar.

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