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Domingo, 31 Mai 2026 11:23

Angola afasta Portugal e a Rússia da sua política externa, diz investigador

A política externa angolana atravessa uma profunda transformação sob a liderança do Presidente João Lourenço, marcada pelo afastamento progressivo de parceiros tradicionais como Portugal e a Rússia e pela aproximação a novas potências europeias. A análise é do investigador Rui Verde, que considera que Angola está a redesenhar o seu posicionamento internacional e a reduzir o peso das relações históricas que marcaram as últimas décadas.

Em declarações à agência Lusa, a propósito do lançamento do livro Breve História de Angola desde a Independência (1975-2025), marcado para 5 de Junho, em Lisboa, Rui Verde sustenta que Portugal "está a ser extremamente ultrapassado" no relacionamento externo angolano, num contexto de mudanças estratégicas promovidas por João Lourenço desde que chegou ao poder em 2017.

Segundo o investigador, associado ao Centro de Estudos Africanos da Universidade de Oxford, uma das alterações mais significativas ocorreu na relação com a Rússia, tradicional aliado de Angola desde os tempos da Guerra Fria.

"Há um grande esfriamento da relação com a Rússia", afirma.

Como exemplo dessa mudança, Rui Verde destaca o recente julgamento em Angola de alegados elementos ligados ao universo pós-Wagner, grupo paramilitar russo que ganhou notoriedade em diversos conflitos internacionais.

"A acusação de que pretendiam subverter o regime é uma novidade enorme no contexto das relações entre os dois países", observa.

Relação com a China entra em fase de reajustamento

A mudança não se limita a Moscovo. Também os laços com a China estão a ser revistos pelas autoridades angolanas, depois de mais de duas décadas marcadas por uma forte dependência financeira de Pequim.

De acordo com Rui Verde, Luanda procura reduzir a exposição ao modelo de financiamento que caracterizou a reconstrução do país após o fim da guerra civil.

Durante anos, empresas chinesas receberam financiamentos concedidos por bancos chineses para executar grandes obras públicas em Angola, num sistema em que os empréstimos eram garantidos por futuras receitas petrolíferas.

Para o investigador, este mecanismo acabou por gerar constrangimentos financeiros significativos.

"Isto criou condições financeiras graves a Angola", afirma, acrescentando que as autoridades procuram agora estabelecer uma relação mais equilibrada e menos dependente.

Na sua leitura, existe uma perceção crescente em Luanda de que o modelo anterior favoreceu sobretudo interesses externos, sem produzir os resultados esperados para a economia angolana.

Portugal perde peso estratégico

Se a Rússia e a China enfrentam processos de redefinição das suas relações com Angola, Portugal, segundo Rui Verde, está a assistir a uma erosão gradual da influência que historicamente exerceu no país africano.

O investigador sublinha que os laços culturais, sociais e humanos permanecem fortes, mas deixaram de se traduzir automaticamente em relevância estratégica.

"Dois terços dos ministros angolanos têm nacionalidade portuguesa, veem o Benfica e o Porto, vêm comprar vinho e fatos à Avenida da Liberdade. Isso tudo existe. Agora grande investimento, grande interesse estratégico, não existe", afirma.

Na sua perspetiva, a relação bilateral está cada vez mais confinada à sua dimensão histórica e cultural, enquanto Angola procura diversificar os seus interlocutores na Europa.

França, Espanha e Alemanha ganham protagonismo

A nova orientação diplomática angolana passa pelo reforço das relações com alguns dos principais países europeus, nomeadamente França, Espanha, Alemanha e Reino Unido.

Para Rui Verde, a aproximação à França constitui um dos exemplos mais evidentes desta estratégia, apontando a adesão de Angola como observadora à Organização Internacional da Francofonia como um sinal político relevante.

Ao mesmo tempo, considera que João Lourenço demonstra um interesse limitado pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), organização que durante décadas constituiu uma das principais plataformas diplomáticas de Angola.

"Já não é o embaixador português o ponto de contacto da Europa em Angola, como era no passado", afirma.

Segundo o investigador, a política externa angolana procura hoje posicionar o país como um parceiro autónomo e multifacetado, capaz de dialogar diretamente com os principais centros de poder internacional.

Ambições continentais e projeção internacional

A estratégia de afirmação externa de Angola também se fez sentir no continente africano, particularmente através dos esforços de mediação liderados por João Lourenço no conflito no leste da República Democrática do Congo.

Apesar do envolvimento diplomático de Luanda, Rui Verde considera que os resultados ficaram aquém das expectativas.

Na sua opinião, a aproximação do Presidente congolês, Félix Tshisekedi, ao Qatar e aos Estados Unidos acabou por enfraquecer o papel mediador desempenhado por Angola.

"A mediação angolana ficou pendurada", afirma, acrescentando que não produziu uma solução duradoura para o conflito.

O investigador considera igualmente que Angola não dispôs dos instrumentos de pressão necessários para transformar a mediação num processo mais eficaz.

"Não passou de conversa. Não colocou tropas, não ameaçou com sanções económicas", sustenta.

Ainda assim, entende que o protagonismo regional conquistado por João Lourenço, reforçado pela presidência da União Africana e pela distinção como Campeão da Paz atribuída pela organização continental, poderá abrir portas a responsabilidades internacionais após o fim do seu mandato presidencial.

"Não indo para um terceiro mandato, sempre pareceu que iria e tinha algum perfil para um cargo internacional", afirma.

Com a aproximação do final do seu segundo mandato, João Lourenço deixa como uma das suas marcas mais visíveis uma política externa que procurou reduzir dependências históricas, diversificar alianças e reforçar a presença de Angola nos principais fóruns internacionais, numa estratégia que, segundo Rui Verde, alterou significativamente o posicionamento diplomático do país.

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