“Estou a ponderar a candidatura”, revelou Irene Neto, assegurando que conta com apoio de “vários sectores da sociedade angolana”, incluindo dirigentes e militantes do MPLA. A também antiga vice-ministra das Relações Exteriores para a Cooperação garante, contudo, que qualquer decisão será tomada “com serenidade”, no momento que considerar adequado.
Segundo afirmou, antes mesmo de ser anunciada a data do congresso, no ano passado, já tinha manifestado disponibilidade para entrar na disputa pela liderança do partido dos “camaradas”.
“Esta disponibilidade não desapareceu só porque o congresso foi marcado para o último mês do ano”, declarou, acrescentando que a decisão final será anunciada em conferência de imprensa e que a comunicação social angolana será a primeira a ser informada.
Com 64 anos, Irene Neto possui um percurso político e institucional relevante em Angola. Médica de formação, foi deputada à Assembleia Nacional durante várias legislaturas e desempenhou funções governativas, além de manter ligação a iniciativas sociais e à preservação do legado político do seu pai, figura histórica da independência angolana e fundador do MPLA.
A eventual candidatura de Irene Neto junta-se aos nomes já apontados à sucessão interna no MPLA, entre os quais o general Higino Carneiro, António Venâncio e José Carlos de Almeida, num processo que deverá intensificar-se à medida que se aproxima o congresso partidário.
O analista político Nsolé Pedro considera que a entrada de Irene Neto poderá introduzir uma nova dinâmica no debate interno do MPLA.
“Trata-se de um momento potencialmente inédito, ao colocar uma mulher na disputa pela liderança do partido, num contexto marcado pela forte carga simbólica do apelido Neto na história política angolana”, observou.
A possível candidatura surge igualmente envolta em atenção mediática devido à situação judicial do marido de Irene Neto, o empresário Carlos Manuel de São Vicente. Detido em Setembro de 2020, São Vicente foi condenado, em Março de 2022, a nove anos de prisão efectiva pelos crimes de peculato, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
A acusação sustentou-se no alegado desvio de cerca de $ 900 milhões de dólares da petrolífera Sonangol, enquanto o empresário liderava o grupo AAA.
Irene Neto tem defendido publicamente o marido, considerando o processo politicamente motivado, e criticou a exclusão de Carlos São Vicente dos indultos presidenciais concedidos em 2024 e 2025. No âmbito do processo, as autoridades angolanas procederam igualmente à apreensão de vários bens do empresário, entre os quais o edifício IRCA, em Luanda.
A sucessão de João Lourenço continua a ser um dos temas centrais no interior do MPLA, sobretudo numa fase em que o país se aproxima das eleições gerais de 2027. Neste contexto, a eventual entrada de Irene Neto na corrida poderá reconfigurar alianças e estratégias internas, reabrindo um debate que alguns sectores do partido consideravam relativamente estabilizado.

