Quarta, 27 de Mai de 2020
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Sexta, 27 Março 2020 19:34

Covid-19: Portugueses despedem-se desanimados de Angola em estado de emergência

Cansados e desanimados, assim se mostraram os portugueses que deixaram Luanda hoje à tarde para regressar a Lisboa, preocupados com o alastramento da pandemia provocada pelo novo coronavírus, e indignados com o "abandono" das autoridades portuguesas.

Sem conseguirem resolver o problema do regresso através do consulado de Portugal em Luanda ou da TAP, muitos dos portugueses que ficaram retidos em Angola depois de o país fechar fronteiras em 20 de março, recorreram aos seus próprios meios para encontrar um voo, contactando diretamente agências de viagens em Portugal.

Carla Tenrinho, que parte acompanhada dos filhos, por sentir "mais segurança" em Portugal, queixou-se das dificuldades e do elevado preço dos bilhetes.

"Estamos há duas semanas a tentar viajar, o consulado não funciona", criticou, explicando que se inscreveu com a família numa lista, mas só conseguiu o voo por intermédio de uma agência de viagens com um custo "três vezes superior ao normal".

A portuguesa acrescentou: "Todos os dias tentámos a TAP e não obtivemos resposta".

"Não sei verdadeiramente se o consulado aqui existe", disse com ironia João Carmo, outro dos 285 passageiros que embarcaram hoje num dos dois voos disponibilizados pela TAP.

O português que trabalha em Angola há oito anos relatou a odisseia por que passou para conseguir o desejado bilhete.

"Não vale a pena mandar ‘mails’, não há nenhuma resposta. Mandamos ‘mails’ para nos inscrevermos, dirigimo-nos à TAP porque o consulado assim disse e, simplesmente, as listas que lá estão não têm os nossos nomes, é muito estranho", afirmou à Lusa.

João Carmo conseguiu arranjar voo através de uma agência de viagens, após estabelecer alguns contactos, e foi com surpresa que viu a confirmação às 05:20 de hoje.

"Já tinha tentado nas listas do consulado, nas listas da TAP, dirigi-me à TAP, com um voo que tinha para dia 24 de março - e houve um voo no dia 24 de março. Primeiro, disseram-me para ir ao aeroporto fazer o ‘check in', depois disseram que não valia a pena porque era um voo extra. Uma confusão total", desabafou.

Há quem se irrite com as listas e questione a forma como foram elaboradas, como Daniel Santos, que estava em viagem de negócios e também tinha voo de regresso para Lisboa, mas foi cancelado devido ao fecho de fronteiras.

"Até achei que havia algum controlo por parte do consulado, mas percebi que havia várias listas, que se calhar até tinham algum critério, mas ninguém sabia. Comecei a perceber que havia várias listas por que havia diferentes níveis de contactos com as diferentes pessoas e aí senti-me preterido. Houve três voos que saíram e eu nem soube que tinham saído. Como é que isto é possível?", questionou.

Mostrou-se revoltado com a forma como o consulado tratou os portugueses, sublinhando que foi dada toda a informação pedida sem que tenha tido qualquer tipo de retorno: "Isto não é minimamente correto”.

Daniel Santos sentiu "que havia jogadas, interesses" e reforçou que não obteve resposta aos seus email e, "por telefone, era impossível".

Acabou por conseguir um voo através de uma das várias agências de viagens com que contactou.

"Estou a sair por causa do meu filho, não é seguro para ele", justificou Catarina Sousa, empresária em Angola, que se vai juntar aos pais em Portugal.

Confirmando que "foi difícil conseguir o bilhete" porque há uma "enorme lista de espera", admitiu que está também preocupada com a situação em Portugal: "Vai-se prolongar, vai demorar meses e estamos todos a sofrer com esta situação”.

Quanto à empresa, neste momento está parada devido ao estado de emergência declarado pelo Governo para combater a propagação da epidemia. "Vamos ver até quando", disse.

Pedro Miguel também descreveu uma verdadeira luta por um lugar neste avião: "Fomos obrigados a colocar-nos em situação de risco, só conseguimos hoje de manhã, tivemos de ir bater na porta da TAP, mesmo estando encerrada".

Segundo contou, na terça-feira, cerca de uma centena de portugueses concentraram-se junto ao escritório da transportadora em Luanda.

"Sentimo-nos abandonados, estamos há mais de 10 dias sem informação consular sobre os voos e a única maneira de sabermos foi através dos meios de comunicação social", censurou.

O estado de emergência em Angola vigora a partir de hoje e tem o prazo de 15 dias prorrogáveis, como medida cautelar para conter a propagação do novo coronavírus que infetou quatro pessoas no país.

 

EuroAtlantic anuncia voo de repatriamento de Luanda este sábado

A companhia aérea portuguesa euroAtlantic airways (EAA) deverá realizar este sábado um voo de repatriamento de cidadãos portugueses entre Luanda e Lisboa, anunciou hoje a transportadora, que adiantou estar a preparar mais viagens de países africanos lusónofos.

A EAA "está a preparar para a empresa ISD Travel uma operação de repatriamento de cidadãos portugueses, que deverá ter lugar no próximo dia 28 de março (sábado) a partir do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro em Luanda", afirma a companhia aérea em comunicado.

O voo EAA (YU652) deverá deixar a capital Angola pelas 13:00 locais (12:00 em Lisboa) e tem chegada prevista ao Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, para as 19:00 locais, especifica a empresa no comunicado emitido hoje.

Na sua página oficial na internet, a agência de viagens ISD Travel também informa os seus passageiros sobre a realização deste voo no sábado, 28 de março.

Neste voo de repatriamento, efetuado num Boeing B767-300ER, entre as capitais angolana e portuguesa, a EAA adianta que "vai transportar para a TAP Portugal 16.509 toneladas de carga".

A companhia adianta que "está a preparar novos voos de repatriamento, alguns oriundos de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP)", mas sem adiantar mais pormenores.

De acordo com a mesma nota, a euroAtlantic airways efetuou esta quinta-feira "um repatriamento de cidadãos" de países terceiros, eslovacos e húngaros, do Aeroporto Internacional Washington Dulles de Washington (EUA) para o Aeroporto Internacional de Bratislava-M.R, que serve a capital da Eslováquia.

A TAP também anunciou hoje que está a preparar os dois primeiros voos de repatriamento de passageiros entre Maputo e Lisboa para segunda-feira à noite.

A companhia aérea de bandeira nacional informou ainda que está a preparar mais um voo de repatriamento que sairá de Luanda no sábado à noite, além dos dois já previstos para hoje.

Além dos dois voos hoje de Luanda, a TAP efetuará um de Bissau para Lisboa, que sairá da capital africana às 01:45, portanto já no sábado, e outro que sai da Praia esta noite às 00:40, também já no sábado.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou cerca de 540 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram perto de 25 mil.

Dos casos de infeção, pelo menos 112.200 são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

O continente europeu, com mais de 292 mil infetados e quase 16 mil mortos, é aquele onde está a surgir atualmente o maior número de casos, e a Itália é o país do mundo com mais vítimas mortais, com 8.165 mortos em 80.539 casos registados até quinta-feira.

A Espanha é o segundo país com maior número de mortes, registando 4.858, entre 64.059 casos de infeção confirmados até hoje, enquanto os Estados Unidos são desde quinta-feira o que tem maior número de infetados (mais de 85 mil).

O número de mortes causadas pela covid-19 em África subiu para 94 com os casos acumulados a ultrapassarem os 3.400 em 46 países, segundo a mais recente atualização das estatísticas sobre a pandemia.

Vários países adotaram medidas excecionais, incluindo o regime de quarentena e o encerramento de fronteiras.

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