Terça, 16 de Julho de 2019
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Domingo, 07 Julho 2019 01:43

Quem está comigo?

Com o Congresso da UNITA à porta e uma enorme expectativa dos cidadãos, no geral, de quem pode vir a concorrer com João Lourenço em 2022, para o cargo de presidente da República, observo um grande fenómeno que, de resto, não pertence só à UNITA: quem está comigo?

Existe sempre um clima hostil no seio dos partidos políticos angolanos quando se vislumbra uma mudança de líder. Há sempre um medo de mudanças nas lideranças dos nossos partidos políticos. Lembro-me de ver o comportamento de muitos dirigentes do MPLA aquando da saída de José Eduardo dos Santos do cargo de presidente do MPLA.

JES chegou a ser maltratado em reuniões do MPLA porque os "servidores de ocasião" já sabiam que o chefe, nos nossos partidos políticos, perguntam sempre: quem está comigo?

E o quem está comigo deu resultados. A bajulação dá sempre bons resultados nos nossos partidos políticos. Fala-se em "combate à bajulação" mas é pura utopia.

Os nossos líderes partidários gostam de ser venerados. Gostam de se sentir Deus. É só ver como Sérgio Luther Rescova chegou ao cargo de governador provincial de Luanda, um jovem que nunca demonstrou nenhuma competência num outro cargo na governação do país e é "atirado" para governar a província mais complexa de Angola. A contradição tem uma explicação: quem está comigo?

Por aquilo que ficámos a saber, Sérgio Luther Rescova terá sido dos militantes seniores do MPLA a exigir que José Eduardo dos Santos saísse o mais rápido possível quando meses antes dizia, em campanha eleitoral, que José Eduardo dos Santos foi o grande visionário de Angola. Num ápice, todas as qualidades do líder já não eram qualidades. A vinda de outro líder fez-lhe mudar completamente o discurso.

Na UNITA, com o cenário do Congresso de Novembro que vai (atenção que não estou a dizer "pode", estou a dizer "vai") substituir o presidente Isaías Samakuva, militantes não têm sido um "Rescova". Têm feito o contrário: pretendem afundar a UNITA com o apoio que estão a dar ao presidente Isaías Samakuva para concorrer para o 5.° mandato, uma vez que um político que demonstra publicamente que não tem palavra nunca poderá contar ser eleito presidente da República. Isto não existe em nenhum país normal.

Quem está comigo? Samakuva poderá estar a fazer-se esta pergunta. Todos eles fazem esta pergunta. Há, inclusive, pronunciamentos de possíveis candidatos à Presidência da UNITA eivados de medo. Muitos pretenderão candidatar-se mas não podem fazê-lo agora por causa do "quem está comigo". Terão medo de represálias por parte de Isaías Samakuva, caso mostrem que podem "afrontar" o chefe. Foi um pouco o que aconteceu com João Lourenço, quando disse em viva voz que podia assumir o país e o partido MPLA se José Eduardo dos Santos saísse, e, como consequência, teve uma travessia no deserto.

Esta ideia do "quem está comigo?" é muito alimentada nos nossos partidos que, na verdade, não são democráticos. Nenhum deles é democrático. Só assim se pode compreender que, na UNITA, após o anúncio do Congresso, apenas José Pedro Kachiungo conseguiu abrir o peito. Mais ninguém consegue assumir.

Este clima do "quem está comigo?" que todos os partidos políticos alimentam é o grande causador das desgraças do nosso país. Os nossos "líderes" partidários gostam de quem mostra "estarem com eles". E quem o faz recebe prémio: cargo de destaque. Temos vários exemplos no MPLA de João Lourenço. Aliás, o antigo secretário-geral do MPLA Álvaro Boavida Neto deixou prematuramente o cargo justamente porque disse publicamente "estou contigo, mas também estou com o antigo líder". Isto foi fatal.

Na fase da campanha eleitoral, o jornal "O País" promovia todos os dias a imagem de João Lourenço, mesmo que não houvesse uma matéria de realce para manchete. "Quem estava com ele?" Luís Fernando, na altura, estava a assinar o jornal como director interino. Não se percebeu por que José Kaliengue, que já era o director, deixou, de repente, de assinar o jornal. Resultado: Luís Fernando foi nomeado para assumir o cargo de director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do presidente da República. Podia dar outros exemplos do "quem está comigo?".

Na UNITA, o clima está a ser gerido pelas mesmas razões: "quem está comigo?". Samakuva vai sair mas ainda não anunciou. Enquanto isto, muitos militantes que foram projectados por Samakuva mostram vassalagem ao chefe. Não pretendem que o chefe saia com medo do "day after" (quem está comigo?).

Estes comportamentos justificam a razão de em Angola ainda não se promover a meritocracia. E o fenómeno estende-se em todas as organizações. Justifica-se, por isso, que estamos longe de termos instituições fortes (aquelas que avançam com o desaparecimento físico dos líderes).

Os militantes que insistem que Samakuva deve continuar mostram que não chegaram aos cargos fruto da meritocracia. Chegaram aos cargos porque, nos actos eleitorais, mostraram "estou contigo" às várias candidaturas de Isaías Samakuva.

Quando Samakuva afirmar que já não fica, os mesmos que sempre disseram "estou contigo" até vão pedir para que ele saia o mais rápido possível para dar um novo "estou contigo" a outra freguesia.

Por: Carlos Alberto (Cidadão e Jornalista)

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