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Segunda, 23 Março 2026 21:45

O Sonho Periférico: ascender a classe média dominante

A mobilidade social em Angola parece andar aos mesmo passos que um caracol. Nunca foi tão difícil para os periféricos sair da pobreza como nos dias de hoje. Para quem veio de baixo, tem nos estudos uma das opções possíveis para mudar o curso de sua vida, mas que, infelizmente, pela ausência de cultura formal, são impedidos — de forma indirecta — de ascenderem para certos cargos de poder.

Por tudo isto, devemos reconhecer que as culturas não são apenas àquelas ligadas ao cultivo ou as tradições étnicas. Elas são e estão também ligadas "aos valores e patrimónios simbólicos objectivos e subjectivos de determinados grupos sociais". Este tipo de cultura está ligada ao poder económico que consequentemente gera classes sociais antagónicas nomeadamente: a classe média e a classe periférica marginalizada, que disputam de forma indirecta espaços de poder e de decisão.

A classe média, devido ao seu capital económico, gerou uma cultura dita erudita ou clássica, onde seus padrões linguísticos e dinâmicas sociais estão apoiados ao seu mundo material, enquanto que, não muito diferente, os periféricos, carentes de todo capital económico e riqueza material, geraram uma cultura e linguagem funcional ao seu contexto social  que entra em conflito com ambientes formais. É mais fácil vermos o uso de uma linguagem informal (como gírias/calões) nos bairros ou em famílias empobrecidas do que em lugares urbanos ou em famílias da classe alta.

Esta realidade vive-se sobretudo na escola, onde os conteúdos ministrados e plasmados no currículo são totalmente formais e antagónicos a classe periférica,  mas que exige de todos  aquilo que apenas alguns receberam por herança cultural, tal como defendeu o sociólogo Pierre Bourdieu. Então, a escola dá legitimidade a cultura da classe dominante, desde os ensinamentos literários, técnicos, sociais, linguísticos, entre outros. Uma prova disso são os exames nacionais que agora são de certificação,  onde as melhores positivas vêm daqueles que residem nas zonas urbanas em detrimento das zonas rurais, fazendo com que, muitas vezes, aqueles que já são possuidores da cultura dominante tenham mais chances de ascender nos espaços de poder e decisão; já os periféricos, não se vendo representados nas escolas, e pior ainda, quando de lá saem (alguns nem chegam a concluir de facto os estudos), encontram-se com um outro desafio: a busca pelo primeiro emprego.

Após a conclusão dos estudos, a maioria não tem capital financeiro para gerar seu próprio negócio ou empresa, então, lançam-se nas organizações e empresas daqueles que sempre detiveram uma vantagem para obtenção fácil do capital. No entanto, muitos não são contratados, sobretudo em grandes cargos, se não mantiverem uma boa comunicação ou linguagem, arcaboço literário ou intelectual, — àquela semelhante a da cultura dominante — e por tanto, muitos são afastados por não preencherem esses padrões e são obrigados a aceitar qualquer emprego e que nelas a exploração anda de mãos dadas com a miséria salarial. Assim, viver na periferia, no gueto, para muitos é um fardo infernal que quem de lá sai é rotulado como vencedor. É até comum ouvir a frase  "O Gueto Venceu" quando alguém proveniente da periferia ou musseque ascende para lugares de destaque na nossa sociedade. Parece que esta expressão escancara a idéia de que pessoas que vivem nos guetos estão fadados a viverem nesta condição permanente de indigência e que sair desta situação é um acto de sorte. Sair da periferia e ascender à classe média ou dominante é um sonho periférico igual um cristão anseia pelo paraíso.

Ora, a marginalização da cultura periférica em Angola está intrinsecamente ligada ao seu mundo material, e é como defendeu Karl Marx, ao afirmar que "não é mudando a linguagem que se muda o mundo material, mas é mudando o mundo material que se muda a linguagem", então, as políticas públicas devem estar voltadas para as periferias ou musseques para potencializar as suas estruturas sociais e organizacionais. A ausência de muitas organizações que conservam um padrão intelectual e cultural nas suas formas de relações, faz os periféricos gerarem suas próprias formas de organizações — com poucas referências de figuras eruditas — nomeadamente as gangs, grupos de wowo, de festas e outros semelhantes que contribuem para a revitalização e a reprodução da sua cultura isenta de bens simbólicos objectivos e subjectivos da cultura intelectual dominante.

Não obstante, também existem muitos jovens que resistem a essa realidade dura. Já conseguimos ver muitas bibliotecas comunitárias a serem criadas por grupos de jovens que se preocupam em fomentar no seio da comunidade o gosto pela leitura, pois acreditam que estudar é um acto revolucionário e um direito que todos devem ter acesso. Outros nesta franja que se destacam seja por intermédio dos estudos, da literatura, das artes ou das músicas, tentam passar a mensagem para o público em geral sobre a realidade periférica. Como se pode ver nas músicas do falecido kudurista Mano Chaba, ou do então raper 12Furos.

Para que tal façanha seja possível, quem veio de baixo deve pensar fora da caixa: fazer amizades com pessoas que pertencem a cargos ou lugares de poder e de decisão; fazer leituras não só literárias mas das situações socias emergentes da época; alguns que pretendem exercer cargos públicos ou em lugares de destaque social lutam para moldar a sua linguagem ou perfil para se enquadrar aos contextos em questão; são também chamados a participarem de encontros que manifestam uma cultura literária ou empreendedora a fim de ganhar uma nova visão, diferente daquela do seu bairro.

Por isso, mudar a situação periférica, passa pela mudança do seu mundo material. Passa pela construção de bibliotecas, espaços organizacionais que congregam a cultura erudita, melhor distribuição das riquezas e oportunidades, urbanização dos espaços periféricos, créditos às famílias e aqueles que se formam ou que pelo menos apresentam projectos inovadores. Por tanto, a periferia é resultado das más políticas públicas, e resolver o seu problema deve partir de mudanças estruturais concretas. Só dessa forma se combaterá a desigualdade social.

Por Mateus Kuta

Estudante de Ensino Primário no Instituto Superior Dom Bosco da Universidade Católica de Angola.

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