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Segunda, 23 Março 2026 19:55

“Falar da batalha de Cuíto Cuanavale sem falar da derrota das FAPLA em Mavinga.”

O dia 23 de março de 1988 é frequentemente apresentado como um marco decisivo na história militar de Angola. No entanto, mais de três décadas depois, a forma como esse episódio é interpretado continua longe de ser consensual — e, para alguns analistas, profundamente incompleta.

A Batalha do Cuito Cuanavale é muitas vezes descrita como um ponto de viragem estratégico. Mas essa leitura, segundo vozes críticas, ignora um elemento essencial: o fracasso das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) na tentativa de tomar Mavinga, objetivo central da ofensiva lançada entre 1987 e 1988.

De acordo com Alcides Sakala Simões, membro da UNITA, o que ocorreu naquele período não foi uma vitória decisiva, mas o desfecho de uma campanha militar que terminou em impasse. Os combates, travados nas margens dos rios Tchambinga, Kuzúmbia, Kuzizi e Lomba, tinham como finalidade a conquista de Mavinga e, posteriormente, da Jamba — bastiões estratégicos da UNITA.

Esses objetivos, no entanto, não foram alcançados. As forças governamentais, apoiadas pela União Soviética e por Cuba, acabaram por recuar até à margem direita do rio Cuíto, onde se consolidou um bloqueio militar sem vencedor claro. Para críticos da narrativa oficial, é precisamente esse recuo — e não uma suposta vitória — que define o verdadeiro significado da campanha.

A omissão desse contexto, argumentam, distorce a compreensão histórica dos acontecimentos. Ignorar a incapacidade das FAPLA de ocupar Mavinga equivale a analisar apenas parte do conflito, desconsiderando o objetivo estratégico que motivou toda a operação.

Essa leitura é reforçada por Kamalata Numa, general da UNITA, que contesta diretamente a versão promovida pelo MPLA. Para ele, a ideia de uma grande “batalha decisiva” é, em grande medida, uma construção política. “Esta batalha é uma ficção”, afirma, sustentando que o que houve foram várias operações militares com metas específicas que acabaram por fracassar.

Segundo Numa, o facto de o governo nunca ter conseguido ocupar nem Mavinga nem a Jamba demonstra que não houve vitória estratégica. Pelo contrário, o resultado foi um impasse que expôs limitações militares e abriu caminho para negociações.

De facto, o bloqueio no terreno teve consequências relevantes fora do campo de batalha. O equilíbrio de forças contribuiu para a abertura de negociações internacionais que culminaram em acordos assinados em Nova Iorque, em dezembro de 1988, prevendo a retirada das tropas estrangeiras de Angola.

Esses entendimentos estiveram na base de transformações políticas mais amplas na África Austral, incluindo a independência da Namíbia e o início do processo que levaria ao fim do apartheid na África do Sul, além da assinatura dos Acordos de Bicesse em 1991.

Ainda assim, o conflito angolano prosseguiu após 1988, o que reforça a ideia de que Cuíto Cuanavale não representou o fim da guerra. Novas ofensivas foram lançadas, incluindo uma última tentativa de tomada da Jamba em 1990, igualmente sem sucesso.

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