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O Presidente e os Jornalistas no Crisol do Interesse Público

O Presidente e os Jornalistas no Crisol do Interesse Público

A conferência de imprensa ocorrida hoje, 8 de Janeiro, no Jardim do Palácio Presidencial, em que o Chefe de Estado e de Governo interagiu com os jornalistas de diversos órgãos de comunicação social, foi uma demonstração inequívoca de que as reformas pretendidas para a normalização e o avanço do País devem ser encaradas com realismo, circunspecção e moderação.

Por Nuno Álvaro Dala

Tanto o Presidente da República como os jornalistas não exploraram ao máximo o referido evento, em ordem a que, efectivamente, o mesmo se constituísse numa oportunidade de prestação de um extraordinário serviço de comunicação aos cidadãos. Partindo da perspectiva de que os seres humanos fazem coisas com as palavras e que a linguagem constitui uma importante ferramenta de transformação, as pessoas podem produzir mudanças na estrutura da razão pública e na estrutura das relações sociais através da acção comunicativa. Agir é comunicar e comunicar é agir (Habermas, 1981).

Do presidente da república

Infelizmente, João Lourenço deu respostas vagas e superficiais a perguntas importantes (como aquela sobre as ameaças à segurança nacional) e fingiu responder a outras de igual importância (como aquela sobre a celebração dos acontecimentos de 27 de Maio). O Presidente da República também se esquivou de responder a certas perguntas, contornando-as com expositivismo legalista. Deu respostas desastrosas a perguntas claras e objectivas (como aquela sobre ajudar as rádios privadas, alegando que não as apoiaria, quando a Lei de Imprensa diz o contrário).

A presidência da República restringiu em demasia o direito dos jornalistas a fazer perguntas, limitando os mesmos a formularem apenas uma. Num universo de 200 jornalistas, apenas 20, isto é, 10%, puderam fazer a pergunta única (embora alguns tenham feito mais). Quais foram os critérios de selecção dos jornalistas com questões agendadas? Os 20 jornalistas que fizeram perguntas foram os únicos que se dispuseram a tal? Este problema de restrição foi também uma tradução da sofrível gestão de proporção entre convites e credenciamentos. Em todo caso, a expectativa é que estes e demais constrangimentos de organização sejam superados na próxima conferência de imprensa, a ser realizada em 2019.

Dos jornalistas

O desempenho lamentável dos jornalistas durante a conferência de imprensa revelou os seguintes dados:

  1. Os jornalistas dos órgãos de comunicação social públicos e seus apêndices (salvo excepção) fizeram perguntas típicas de um jornalismo pravdesco, traduzido em não perguntar o que se deve perguntar e perguntar o que não se deve (por não haver pertinência nem utilidade pública). O cúmulo da tragédia foi alguns deles fazerem perguntas ridículas e de uma imbecilidade inominável, como esta: “O Sr. Presidente está a gostar de ser nosso presidente?”
  2. Os jornalistas de órgãos de comunicação social privados (aqueles que puderam fazer perguntas) tiveram um desempenho minimamente razoável (próximo do medíocre), que não foi abrangente sobre as temáticas actuais que têm marcado os primeiros meses da presidência de João Lourenço. O Presidente da República fez a sua declaração de bens? O Presidente da República pode provar a seriedade do seu compromisso com a transparência e a probidade tornando pública a sua declaração de bens? O Presidente da República já repatriou os milhões de dólares que tem no estrangeiro? É verdade ou não que o Sr. Presidente da República é sócio de negócios de Jean Bastos de Morais, um dos indivíduos que tem saqueado o Fundo Soberano? O que o Governo está a fazer em relação às mortes por paludismo de cidadãos na província do Uíge? Quais as razões que levaram o Governo a decidir não contratar novos funcionários públicos? Estas e outras questões não foram feitas ao Presidente da República (salvo excepção).

A leitura da apreciação que grande parte dos cidadãos faz do desempenho dos jornalistas permite perceber uma mensagem clara: decepção. A montanha pariu um tépido rato. Todavia, é seguro afirmar que o desempenho de um certo grupo de jornalistas foi positivo, na medida em que os mesmos fizeram algumas das mais importantes perguntas que se impunham.

O Presidente saiu-se totalmente mal? Não. Seria desonesto qualificar de nulo ou zerado o seu desempenho. Ele conseguiu ser feliz em algumas respostas.

Os jornalistas foram uma decepção total? Não. Não foram. Houve jornalistas que souberam questionar e esses "salvaram" a honra do convento, mas, em geral, deixaram a desejar, estando próximos da mediocridade.

A conferência de imprensa foi realizada. E, mais importante do que fazer a festa de ineditismo da mesma, é cada cidadão prosseguir em fiscalizar a acção governativa.

O Angolano não deve se limitar a ser governado. Deve governar também (ajudando a governar).

O Angolano não deve se limitar a ver como é fiscalizada acção governativa. Deve fiscalizar também (ajudando a fiscalizar).

Modificado emterça, 09 janeiro 2018 12:31

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