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Muçulmanos angolanos dizem-se discriminados por serem acusados de terroristas

Muçulmanos angolanos dizem-se discriminados por serem acusados de terroristas

O julgamento dos seis angolanos acusados de organização terrorista e de jurarem "fidelidade" ao grupo Estado Islâmico arrancou hoje, com os acusados a negarem os crimes e considerando-se discriminados por serem muçulmanos.

A primeira sessão do julgamento, que decorre na sétima secção do Tribunal Provincial de Luanda, foi dedicada à leitura do despacho de pronúncia da acusação e audição aos acusados, onde foi apenas ouvido o réu Angélico Bernardo da Costa, tido como "líder do grupo".

No final da sessão, e com o acesso à sala de audiências vedado à imprensa por orientação do juiz da causa, José Cerqueira Lopes, a coarguida, Ana Júlia Kieto, que aguarda julgamento em liberdade, disse aos jornalistas que está a ser julgada "por ser simplesmente muçulmana".

"Na sessão de hoje, disseram o seguinte: 'a coarguida Ana Júlia Kieto, de 36 anos, esposa do coarguido Angélico Bernardo da Costa aprendeu a ler o alfabeto para saber ler o Alcorão', e ponto final. Então, eu entendo que estou aí por ser muçulmana, simplesmente isso", criticou.

A arguida, que diz ser estilista da moda islâmica e promotora de ações sociais, recusa veementemente as acusações, referindo serem inocentes e que o julgamento tem um "cariz discriminatório".

"Espero a soltura porque somos inocentes e não existe nada", apontou.

"O que está claro é a discriminação que existe no país pelo facto de sermos muçulmanos e professarmos o islamismo, quando fui presa que foi dito que depois de vos mostrar na imprensa, de vos acusar está religião só tem mais cinco anos em Angola e acabou", acrescentou.

O Ministério Público angolano acusou formalmente seis jovens angolanos, cinco dos quais em prisão preventiva desde dezembro de 2016, de organização terrorista e de terem jurado "fidelidade e obediência" ao grupo extremista Estado Islâmico.

De acordo com a acusação, datada de 26 de abril, os suspeitos criaram em 2015, em Angola, o "grupo muçulmano radical denominado 'Street Da Was'".

"Isso até é engraçado, porque não existe grupo nenhum, não é um grupo, é uma atividade e isso acontece em qualquer parte do mundo onde há muçulmanos que se reúnem e saem a rua fazendo evangelização", explicou ainda Ana Júlia Kieto

A muçulmana rejeita ainda as teses de uma alegada ameaça que o islão constitui para Angola: "Islão, uma ameaça para o país em termos de quê? Eu e o meu esposo somos muçulmanos há 20 anos e somos pessoas úteis a sociedade"

"Tenho um programa denominado Chá da Interação', em que eu chamo as muçulmanas e não muçulmanas para esclarecer as nossas vestes, para discutirmos assuntos de mulher, então somos pessoas socialmente úteis", considerou.

À saída da sessão, que deve retomar na quarta-feira com a audição aos arguidos, um dos advogados de defesa, Sebastião Assurreira, disse à Lusa que o réu, Angélico Bernardo da Costa, negou todas as acusações do Ministério Público angolano.

"O Angélico nunca constituiu nenhum grupo, disse ainda que não foi encontrado com supostos 126 livros e negou fidelidade ao grupo radical. Ele ainda revelou hoje que foi ameaçado de morte no primeiro interrogatório", observou.

Sublinhando que aguarda por "imparcialidade", para que a "Justiça seja feita", acrescentou que as acusações continuam sem fundamento: "Ler livros e conversar nas redes sociais sobre temas ligados ao Islão não pode ser entendido como um ato de terrorismo".

Os acusados incorrem num crime previsto na Lei de Combate ao Branqueamento de Capitais e Financiamento do Terrorismo, de 2011, que prevê uma moldura penal de cinco a 15 anos de prisão efetiva para quem participar na constituição de grupo, organização ou associação terrorista.

Os arguidos têm entre 23 e 39 anos, são residentes em Luanda e, de acordo com a acusação, criaram o grupo 'Street Da Was', "formado por cidadãos nacionais convertidos ao Islão", tendo como objetivo "a divulgação do islamismo nas ruas, usando a sigla 'ISLAMYA ANGOLA'", que "publicava e disseminava entre os seus elementos, através das redes sociais, matérias e temas de cariz radical".

Modificado emterça, 17 outubro 2017 10:55

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