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Escrito por Administrador    Ter, 21 de Agosto de 2012 09:20   
Entrevista sobre plano urbanístico Arquitecto João Fernandes

Falei sobre a(UMU) ou seja Unidade Modular Urbana, e fiz uma apresentação de três projectos em diferentes escalas, desde um concurso da recuperação de um centro urbano na Albânia, como de um apartamento e de uma moradia uni-familiar. Mas o tema central era Unidade Modular Urbana


“PARA  SE FAZER UM BOM PLANO DE URBANIZAÇÃO, PRIMEIRO QUE TUDO DEVE-SE TER UMA EQUIPA COMPETENTE E PLURIDICIPLINAR E NÃO APENAS UM ARQUITECTO” Segundo o Arquitecto João Fernandes, a margem do X congresso de arquitectura africana que teve lugar em Luanda.

 

Arquitecto João Fernandes, tem um  Atelier em Angola onde pretende implementar vários conceitos a nível de habitações rurais, de planeamento urbano, bem como a nível da própria Arquitectura, a sua actividade profissional se estende  para além de Angola em países como Portugal, Filandia e Singa Pura, o Semanário Angolense conversou com ele a margem do X congresso da União Africana de Arquitectos, que decorreu passado mês de Junho em Luanda, onde ficamos a conhecer  conceitos como Unidade Modular Urbana, Arquitectura icónica dentre outro argumentos de razão partilhados por este Arquitecto que também empresta o seu saber o processo de urbanização de Angola.

P- Senhor Arquitecto, qual foi o tema da comunicação que apresentou  neste congresso da arquitectura africana?

R- Falei sobre a(UMU) ou seja Unidade Modular Urbana, e fiz uma apresentação de três projectos em diferentes escalas, desde um concurso da recuperação de um centro urbano na Albânia, como de um apartamento e de uma moradia uni-familiar. Mas o tema central era Unidade Modular Urbana.

P- O que é isto de Unidade Modular Urbana?

R- A Unidade Modular Urbana, o nome esconde realmente algo que pode ser também integrado nas próprias Aldeias de Aldeamentos rurais, não é apenas uma questão urbana, também tem uma componente rural, no fundo são princípios, matrizes que se criam para que depois sejam adaptadas à cultura e aos costumes de cada província ou de cada Aldeia a ser implementada. Portanto, fazendo uma metáfora, é quase como se fosse uma peça de lego em que estamos a criar às peças que vão ser compostas ou aglomeradas consoante às próprias necessidades da população e da cultura onde vai  ser adaptada.

P- Já se pode falar ou pelo menos pensar-se num novo paradigma do urbanismo em África?

R- Penso que o urbanismo e arquitectura na sua globalidade não irão inventar nada, acho que no fundo    ter um entendimento muito profundo de saber quais são às nossas raízes.  Onde é que viemos?  Como é que é a nossa cultura? Qual é a nossa génese? A partir dai adaptar com à própria evolução que a sociedade teve, mas não estamos a inventar à roda ela já foi inventada, temos é que ré-interpreta-la com base no nosso passado.

P- Arquitectura e o urbanismo devem ir ao reencontro das nossas tradições ?

R- Claramente, creio que sim.

P- E como seria hoje, quais seriam os condimentos para que voltássemos ao reencontro daquilo que se está perder?

R- Eh! Este é um tema complexo que seria se calhar para uma outra  palestra de uma hora, mas no fundo acho que à essência deste tema, a ver com a socialização, de como o espaço não construído está ter uma importância cada vez maior  nesta tal socialização de uma componente urbana ou rural, esta tal integração entre às pessoas, que está ser urgente, porque realmente a cultura africana vive muito deste convívio, vive muito deste conceito de vizinhança, do conceito de familiaridade, que depois pode ser tanto através  dos Jangos, dos pátios, e passa muito por este ponto.

P- Fala da cultura africana, tem estado a verificar nas novas frentes de urbanização em Luanda , elementos propiciadores da preservação da nossa cultura?

R- Ah! Vou lhe dar uma resposta politicamente correta, ainda não tenho conhecimento suficiente para dar uma resposta mais profunda.

P- Como é que se deve valorizar o espaço não construído?

R- O espaço não construído são os vazios, porque arquitectura é composta de cheios e vazios, quando falo de vazios são os espaços onde se vai fazer uma maior socialização entre as  pessoas, onde pode  haver uma interacção entre pessoas da mesma comunidade, no fundo este espaço vazio encontra posição ao espaço cheio construído desde os quartos, salas e a própria habitação em si, é onde às pessoas passam possivelmente 80% da sua vida útil, é um espaço que muitas vezes é menosprezado, numa sociedade que  tem uma importância fulcral.

P- Quais os subtemas ou subdivisões da Unidade Modular Urbana?

R- Os princípios regedores do conceito da Unidade Modular Urbana, é um, que depois se divide em três , ou seja está tudo sobre uma copula de sustentabilidade,  esta sustentabilidade tem três ramos, que devem ser cumpridos para que realmente este plano tenha sucesso. O primeiro tem haver com a componente económica, depois tem outros subtemas dentro deste próprio tema, a parte cultural, e a parte urbana. São três sectores que realmente tem uma importância fulcral para própria sustentabilidade, não apenas bio- climática, mas à estabilidade a todos níveis da própria Aldeia, a parte económica tem a ver com custos, com os financiamentos, da maneira de autonomia, da maneira de execução da própria aldeia, a parte cultural tem a ver com o tal contacto com a realidade  do local, com a realidade cultural, com à vizinhança, com o conceito evolutibilidade da aldeia,  e das habitações, a parte urbana, tem a ver com princípios que à minha equipa criou que tem a ver com os cheios e vazios a serem entendidos e que  função é que eles devem ter numa sociedade.

P- Quando na sua comunicação dizia que arquitectura não pode se impor no território que queria dizer com está frase digas que lapidar?

R- Para frasear um pouco à palestra do grande arquitecto Gonçalo Verne, que dizia que arquitectura só é considerada um ícone, passando muitos anos, tendo muita vivência com às pessoas, arquitectura deverá ser sempre entendida  e, enquadrada no território onde é projectada, este território já existe a centenas de anos, desta maneira acho que deve haver um sentido de humildade na maneira de projectar, deve haver sempre esta referência com o próprio território deve haver um diálogo, nunca arquitectura impor -se à própria natureza ou o território, mas estar em simbiose com ela e neste sentido poder servir muito melhor, não só nós como humanos como usuários desta própria arquitectura mais a própria natureza.

P- Quando diz que deve haver um diálogo com a Natureza o que quer dizer com esta palavra dialogo?

R- Um dialogo é um sentido metafórico relativamente a forma do que existe como arquitectura e o próprio território.

P- Há uma frase simpática que li algures que diz os homens ou os arquitectos fazem as casas e as casas fazem os homens, tem algum comentário a esta frase arquitecto?

R- Risos..já agora quem é o autor desta frase?

P- De repente não me recordo do autor, sei que li algures...

R- Deve ter sido um grande sábio claramente...risos. Os arquitectos fazem as casas e as casas fazem  homens, isto tem várias interpretações tanto ao nível politico como a nível económico com a nível arquitectónico, indo par o meu campo onde tenho autoridade para falar, posso interpretar que é através da nossa obra que os arquitectos se fazem, não só através das nossas palavras mas do elemento construído. Portanto interpreto um pouco que os arquitectos fazem as casas, mas como falou fazem os próprios arquitectos.

P- O que é isto de projectos icónicos arquitectos?

R- Projectos icónicos são projectos que actualmente tem uma componente de moda muito grande, são projectos que não têm ainda a maturidade e dimensão suficientes, a dimensão do tempo ainda  não passou por eles, para realmente sabermos e vermos se são projectos icónicos agora, daqui a dez anos, daqui a cem anos, ou daqui a mil anos, como é o caso das pirâmides do Egipto, existem muitos projectos icónicos, muita arquitectura icónica, que ao longo do tempo se começa a perder, porque realmente não marca gerações mais marcou possivelmente uma moda, ai não houve a dimensão do tempo que fez com que o projecto ganhasse uma outra dimensão.

P- Existe em Angola algum projecto de arquitectura que se pode considerar icónico?

R- Acho que Angola tem uma cultura arquitectónico muito rica, ancestral, milenar, arquitectura moderna! Riso... Espero que dentro dos próximos anos possamos nos orgulhar de ter um projecto arquitectónico que seja referencia nos quatro cantos do mundo.

P- Que leitura faz hoje do ordenamento do território em Angola?

R- Penso que é um trabalho complexo, que tem que ser feio e que está ser feito, há várias variáveis que não podem ser descuradas e não podem também ter uma leitura simples, é um trabalho que  tem que haver  com uma visão estratégica e não apenas pontual, mas acho que Angola está no bom caminho, Luanda está no bom caminho, porque realmente há alguns projectos que foram bem feitos outros que foram mal feitos, há muita coisa que podemos ver e rever, noutras cidades e noutros  países e adaptar à cultura,  o ambiente e necessidade dos angolanos e particularmente a cidade de Luanda, mas é um caminho que ainda é muito longo mais que há vontade de o fazer e de o percorrer também.

P- Precisamos de um planeamento estratégico mais bem conseguido?

R- O planeamento  estratégico é sempre necessário para qualquer país a nível mundial, especialmente para países que se estão a desenvolver, que têm uma capacidade, uma pujança económica a nível do desenvolvimento integrante como Angola

P- Que apreciação faz hoje da preservação ou não do património em Luanda?

R- Há boa arquitectura em Luanda, esta arquitectura tanto do tempo colonial como agora do pós- colonialismo, há boa arquitectura que foi praticada, julgo que ser cuidada não pode ser vista tudo pelo mesmo filtro,  pelo os mesmo olhos, acho que deve ser analisado caso à caso, para ver se mesmo esta boa arquitectura está enquadrada com às necessidades actuais, porque muitas vezes pode ser um obstáculo ao desenvolvimento estratégico de algumas zonas de Luanda.

P- Há especialistas que dizem, que a baixa de Luanda está ficar cada vez mais descaracterizada por causa  da força do poder económico,  por força disso têm havido demolições de alguns  edifícios classificados como património, dando lugar  novas torres, qual é a sua opinião arquitecto?

R- Sobre este aspecto não tenho conhecimento para tomar uma posição, que me permita fazer um juízo de valor, portanto não tenho  conhecimento.

P- Quais são os requisitos necessários para se fazer um bom plano de urbanização?

R- Risos....Um bom plano de urbanização, primeiro de tudo tem de ter uma equipa competente, uma equipa pluridisciplinar e não apenas um arquitecto, deve ter uma equipa bastante extensa, é necessário ter um conhecimento muito profundo das necessidades da cultura e do território, é preciso estar enquadrado numa visão estratégica de não fazer este plano apenas, para o presente, mais fazer este plano pensando quais é que poderão ser, pensando nas necessidades futuras.

P- Falando em necessidades do futuro, existe uma aposta do executivo angolano de edificar para esta legislatura um milhão de fogos, enquanto especialista e técnico da área, que apreciação faz desta pretensão?

R-  Acho que é um plano ambicioso que nós técnicos, e como arquitectos temos que criar às condições para que este plano seja edificado e concretizado, de uma maneira que possa ser considerado um sucesso para Angola, porque este plano tem um único propósito que é de dar o crescimento e dar fogo, a que muitos angolanos por ventura não poderão ter acesso, depois deste um milhão, deverá fazer-se uma leitura sobre, se será possível a ver um outro plano de outro um milhão ou de quinhentos mil    fogos, seja o que for, mas deve-se adaptar às necessidades locais e tendo em consideração que este plano não pode ser transversal, não pode ser igual para o Norte de Luanda e Sul, Este ou Oeste de Luanda, deve ser olhado ponto a ponto, de província à província, mas é um plano ambicioso que  realmente respeito e que tem tudo para ser um sucesso.

P- Não estaremos perante um caso de ficção técnica?

R- Não sei! Ser possível é possível, desde que haja condições para o fazer e estas condições não são apenas políticas, são condições técnicas, económicas, é um plano que havendo todas estas condições, juntando todas estas condições favoráveis é um projecto que se calhar poderá não ser feito num mês, num ano, mas num prazo de tempo mais concreto e adaptável a ser realizado.

P- Em seu  entender,  Angola precisa de novos bairros indígenas?

R- Acho que sim, Angola é um país muito vasto onde não existem apenas cidades, existem também aldeias que deverão ser reabilitadas, há necessidade de as reabilitar, há necessidade de se fazer novas, mas adaptadas com esta realidade de aldeias e culturas das zonas.

P- Se fosse convidado a fazer um plano para atenuação dos musseques em Luanda como é que faria?

R- Não sei! É uma resposta complexa e não tenho ainda os dados suficientes para dar um resposta que possa ser profissional e acertada sobre isto.

P- Atendendo o facto da empresa em trabalha  ter representação em algumas partes do mundo, sente que à questão da habitação ainda é um problema social?

R- Falando da habitação e falando da forma como é entendida os (timings) diferentes das várias culturas posso dizer que neste momento na Europa se está passar por um processo de reabilitação e não de novas construções, Angola como um país em desenvolvimento, um país com algumas necessidades em alguns campos, para além de haver este processo de reabilitação que será mínimo, há necessidade ainda de se construir, temos é que construir ainda de uma maneira pensada, estruturada   tendo esta visão estratégica global.

Por: Cláudio Fortuna

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