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Grande entrevista – Cláudio Fortuna faz ao Professor José de Carvalho
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«A demografia é líder porque analisa à dinâmica da População» esta é uma frase lapidar da suculenta entrevista com o professor de demografia do Centro de desenvolvimento e Planeamento Regional da Universidade de Minas Gerais, em Belo Horizonte Brasil,

José Alberto de Carvalho, esteve em Luanda para dar uma formação sobre o censo que os angolanos vão realizar em 20013.

- Enquanto demógrafo, que papel da demografia em geral pode jogar como Angola?

A demografia é líder porque estuda e analisa à dinâmica da população, obviamente que à população é absolutamente básica, alias, é a razão de ser de um país, num país como Angola que está numa fase de transição em todos os sentidos, à população é absolutamente fundamental, ainda no caso de Angola há um problema muito sério que foi muito referido nesta conferência tem a ver com o facto de a quarenta não não ter um censo demográfico, os demógrafos têm um papel fundamental na definição e implantação do senso e analise dos resultados do mesmo.

Quais as consequências de um país como Angola pode ter, por não ter um censo demográfico a mais de quarenta anos professor?

As consequências podem ser muito sérias, porque na realidade se não se base se quer o tamanho de população de Angola, às suas características básicas, inclusive em termos de distribuição etária, o que se pode dizer é que às politicas sociais por um lado e por outro as politicas económicas se dão num quadro muito incerto, quase que escuro, dai a urgência de um senso neste país e também porque o senso é uma operação extremamente complexa, sobretudo de um país que a quarenta anos não tem um senso como Angola, cria um ciclo vicioso. Portanto deve haver urgência em se ter um censo, e também de haver tempo para se preparar este censo.

Qual é o tempo necessário para se preparar um censo professor?

Bom! Cada país tem o seu contexto, no caso brasileiro que é um país com uma longa tradição de censos demográficos desde 1872, e basicamente teve um censo à cada década, com uma ou outra excepção, no começo do século passado a nossa experiência é que seriam necessário pelo menos cinco anos de antecedência no caso brasileiro, quanto ao caso angolano não posso dizer se em Angola seriam necessários cinco ou mais anos. Mas de qualquer maneira é urgente fazer-se isto e deve-se preparar muito bem.

Quais as condições necessárias para se preparar um censo professor?

A primeira e a fundamental é a decisão política do Estado angolano em se ter um censo, para tal tem que se garantir recursos necessários, é fundamental que se tenha a frente do censo uma equipa da melhor qualidade, que trabalhe em sintonia com os demais órgãos governamentais, com a sociedade, com a imprensa, porque vai ser com certeza uma das operações de Estado mais complexa de Angola nos próximos anos.

Quando fala em Equipa está falar de quê professor, são demógrafos, ou está falar de uma equipa multidisciplinar ?

Claro que tem que ser uma equipa multidisciplinar, obviamente que tem que fazer parte os demógrafos, geógrafos, estatísticos, as pessoas ligadas a informática, deve ser muito bem planeado desde o inicio, estou a falar e bem planeado desde o inicio quer dizer no levantamento da base, levantamento cartográfico do país para se poder definir as unidades, que nós no Brasil chamamos de sector censitário, não como é que vocês chamam, a definição do questionário, é preciso saber o que se vai perguntar no censo, quais os quesitos, qual será a ordem das perguntas, isto é muito importante é preciso saber como estará hierarquizada as perguntas, porque se não avaliar bem os resultados podem ser diferentes, deve-se fazer um teste antes do censo definitivo, deve a ver uma espécie de pré-censo onde se pode colher amostra de alguns Municípios onde se vai aplicar os questionário inicial para se ver como é que funcionam os questionários, quais são os resultados das perguntas, mas também em termos de apoio logístico, em termos da preparação da equipa que vai ser recenseadora, para que depois da avaliação do pré-censo se ter então uma definição última como deverá ser o questionário, e como deverá ser a estratégia da aplicação do censo, e se tem que planear a partir de agora, como é que estes dados uma vez preenchidos os questionários vão ser codificados? Hoje existe uma grande possibilidade através da informática que permite trabalhar neste domínio, alguns dados devem ser riscados, porque há determinados dados que se conseguem por esta via que são errados, e que devem ser descartados, existem critérios para se descartar ou não uma informação e de seguida ver como é que estes dados vão ser disponibilizados para sociedade, este é o ponto fundamental, infelizmente em determinados países há uma grande dificuldade em disponibilizar os dados depois de se gastar muitos milhões, para o caso do Brasil felizmente somos um exemplo da rapidez com que estes dados são disponibilizados, mas há países vizinhos do Brasil que tem este problema, temos o exemplo de um país que a primeira vista tem uma população mais educada, mais educada que à população brasileira que não devia ter dificuldades em disponibilizar os dados, mais infelizmente tem este problema que é um problema grave. Começamos à nossa conversa falando sobre a importância do senso, é uma operação extremamente cara, mas há casos que depois desta fase os dados são disponibilizados com a rapidez e desagregação necessárias. Tudo tem que ser discutido desde o inicio da operação censitária, para que o censo dos resultados censitários respondam as razões pelas quais se decide ter um censo.

Fala da questão da informação e disponibilidade de dados, um país como Angola que em as pessoas ao nível dos vários, tanto da comunicação social como dos sectores da investigação independentes reivindicam do pouco acesso as fontes de informação para confrontar determinadas informações, trazidas ao públicos por via não oficial, até que ponto é que esta atitude pode redimir o sucesso de um censo?

Por isso é que enfatizo muito este aspecto nas minhas participações aqui, porque se é verdade, e você é que está afirmando que em Angola e já percebi também, já ouvi muita gente a reclamar neste sentido, se é verdade que existe estas tendências de se centralizar muito e dificuldade fazer à disponibilização dos dados, na operação que se vai ter para preparação do censo desde o inicio deve-se enfatizar estes aspectos para que se forme junto da sociedade a consciência da necessidade de que está situação vai ser profundamente modificada, porque este é um problema de cidadania e cabe também a imprensa jogar um papel fundamental para que se mude de atitude. Agora o facto de por vezes o órgão censitário de estatística do Estado se fechar em copas não é um tendência somente de Angola, isto é muito generalizado, mas tem que mudar este quadro, porque se não se mudar não é preciso ter um censo não é? Porque pergunto para quê gastar dinheiro se não se vai tirar o maior proveito possível do retorno censitário?

Professor como é que se faz o planeamento rural?

O censo na área rural?

Exactamente professor...

Bom! O que normalmente e hoje com toda facilidade por via satélite pode-se definir áreas, que no nosso caso chamamos de sector censitário e treina-se os recenseadores que se dirige a cada uma destas áreas para as quais já se tem uma estimativa inicial do número de domicílios e as pessoas se dirigem as áreas rurais, indo de casa em casa, de domicilio em domicilio fazer o levantamento, mas em Angola mesmo já houve algumas pesquisas pelo que estou informado por amostra nas áreas rurais, quer dizer no principio, e até hoje em dia e dado que agora o país está em paz, não há mas o problema de conflitos internos, já não pode haver muita dificuldade em se fazer censo nas áreas rurais que alias, uma das razões para que não houvesse censos antes era devido os conflitos armados , é evidente que durante os conflitos seria absolutamente impossível que houvesse um censo, mas como já a vários anos que se alcançou a paz no país, já há um certo atraso,a desculpa do conflito armado já não cai mais, porque já se vão nove anos de paz, logo já houve tempo para se fazer o censo.

Atendendo o facto de já a quarenta anos sem termos um censo, para esta empreitada será necessário envolver muitas pessoas neste processo, tanto nacionais como estrangeiros, acha que está seria uma via de alguma forma aceitável para que o processo censitário seja aceitável ou que corresponda as expectativa que se alimenta?

Isto vai depender da definição de Angola, do governo angolano que de qualquer maneira é o último responsável pelo censo, em termos de apoios internacional não tenho qualquer dúvida quanto a isso, depois já é tradição parte das Nações Unidas, que até têm dado apoios financeiros para implantação do censo em vários países, de África como foi o caso da Guiné Bissau a nossa coo- irmã, acabou de ter o censo com um grande apoio das Nações Unidas. Claro que Angola por ter mais recursos financeiros, mas de qualquer maneira, vai precisar de algum apoio externo pelo menos em termos de assessoria, de aconselhamento para discutir ideias. Em termos de recursos humanos provavelmente Angola vai precisar e tenho certeza que não somente as Nações Unidas, mas muitos outros países, inclusive Beureau de censos de outros países, estariam dispostos a cooperar com Angola, no caso do censo brasileiro de que fiz parte da comissão constitutiva do censo, houve apoio externo e se discutiu muito com os outros passei latino americanos, com as Nações Unidas sobre o ultimo censo de 2010. Portanto o facto de um país solicitar apoios externos não diminui em nada à sua soberania, é normal que para operações desta complexidade e importância, que se procure trocar experiências, tenho certeza que Angola pelo menos que se refere ao Brasil, a própria posição do governo brasileiro do interesse em termos dos países de língua portuguesa em África, tenho certeza que se demandado este apoio será dado.

No processo censitário é um processo inclusivo professor onde inclui tanto as sensibilidades privadas com as estatais...

Exactamente, quer dizer na realidade é tão inclusivo que indo mais longe deve perguntar qual é a característica principal de um censo demográfico? Deve -se incluir no censo todos os residentes no país, cada individuo tem que entrar, é tão inclusivo que chega até no nível do indivíduos, e obviamente todos os órgãos governamentais tem que estar envolvidos, a imprensa que tem um papel fundamental. No caso de Angola vocês têm uma dificuldade a mais que não é só de Angola mas noutros países de África, que são os diferentes grupos étnicos, que em algumas regiões o português não é a língua de comunicação, que é chamada língua nacional não é falada nesses locais, na preparação do questionário, no treinamento dos entrevistadores esta é uma complicação a mais, claro que o recenseador tem que falar a língua daquelas populações locais que não e expressam em português,

Professor a baixa fecundidade implica sempre um alto crescimento social?

Na realidade é fácil entender que uma fecundidade muito alta que ainda é o caso de Angola que é quase sete filhos por mulher no final da idade reprodutiva, pode em curto prazo trazer alguma vantagem mas há de entender que se mantiver indefinidamente o processo de fecundidade muito alta, as taxas de crescimento anuais da população acima de três porcento, se se mantiver esta cifra indefinidamente vai se chegar num ponto em vai haver grandes problemas sociais, económicos no país. Portanto, o declínio de fecundidade pode trazer benefícios, o que se observa hoje no mundo com excepção de alguns países de África e um ou outro da Ásia, é que todos os países do chamado terceiro mundo estão a observar um rápido declínio da fecundidade e isto em algum momento vai acontecer em Angola, em Moçambique já se observar, mas também um declínio da fecundidade traz oportunidades, e sabemos que as oportunidades são aproveitadas ou não, um declínio da fecundidade diminui o ritmo do crescimento das crianças e jovens, facilitar o investimento na educação, porque se vai trabalhar com números menores, devido ao declínio da fecundidade, que dai a quinze ou vinte anos vai formar a população em idade activa. Então, o investimento nos recursos humanos é reconhecido como algo importante, e fundamental, agora oportunidade, ou janela de oportunidade ou bónus demográficos deve ser aproveitado, porque como tudo na vida tem o outro lado da moeda que é quando a fecundidade cai, à primeira consequência é a queda do ritmo de crescimento da população, menor proporção da população constituída por crianças e jovens, com um outro lado da moeda que é um aumento da população de pessoas idosas com mais de trinta, quarenta ou cinquenta anos que acaba por ser inevitável, a oportunidade que se tem de investir nas crianças é inclusive uma maneira de preparar à mão de obra da população que depois estará no mercado de trabalho que terá que sustentar uma proporção maior de idosos.

Atendendo o facto aqui em Angola haver uma maior ocupação das zonas do litoral em detrimento das outras, como é que se faria o processo de redistribuição da população professor?

Na verdade e atendendo as outras experiências históricas é possibilidade é de se vencer no interior, criar novos centros naqueles locais ou cidades do interior transforma-los em polis que vão atrair à população, é óbvio que se tem que decidir em que locais se pode investir para se diminuir a pressão das cidades do litoral, para o caso concreto de Luanda tem que ter uma analise previa para definir o as vantagens dos nativos daqueles locais em relação aos outros, porque não basta, dando o exemplo do conjunto de residências que estão a ser edificadas aqui em Luanda, se forem feitas por exemplo no deserto ninguém vai para lá, as pessoas não vão simplesmente mudar porque têm um apartamento, porque se ele não tem como sobreviver, é necessário que se definam estes locais onde se vai investir para se poder diminuir a pressão sobre às grandes cidades. É necessário uma analise preliminar para se poder encontrar o potencial daqueles espaços em termos de actividades económicas, e de gerações de emprego etc.

Qual deve ser o papel o papel do demógrafo no capitulo da requalificação urbana de um determinado Município professor?

Penso que o papel do demógrafo neste sentido é o de estimar, ver qual número de população que existe em determinada área, quais as condições sócio-económicas daquela população, são estes os diagnósticos que o demógrafo deve desempenhar, depois dai cabe às autoridades politicas decidirem pela requalificação, a partir dai o demógrafo sai de cena, entram os Arquitectos Sociólogos etc. O demógrafo tem um papel importante na sociedade mas tem que saber quais são as suas limitações, quando o demógrafo pensar que pode resolver todos os problemas é um mau sinal, não existe nenhuma área profissional que tem a capacidade de ajudar a responder todos os problemas tem limitações.

E no capitulo do Ordenamento Territorial, qual é a função do demógrafo professor?

Enquanto a população entrar em qualquer plano ou projecto, que é fundamental saber não somente quantos, mas as dinâmicas demográficas, saber para onde é que vai, hoje a fecundidade, à modernidade e migração o crescimento da população esta é a parte em que entra o demografo, mas as outras fases devem ser tratados pelos outros profissionais.

Atendendo o facto de que em 2013, vai se fazer o censo demográfico de Angola, qual é o recado que gostava de deixar aos políticos e especialistas angolanos para que possamos ter um censo demográfico bem conseguido professor?

Primeiro gostaria de deixar uma mensagem, e dizer que o censo é prioridade absoluta que não é preciso discutir muito, depois de quarenta anos, tendo em conta o facto de ser uma operação extremamente complexa, não se pode deixar que esta urgência e premência, justifique que defina ou que se implante um censo de má qualidade, porque a pressa como se diz é inimiga da perfeição, sou da opinião que se deve iniciar logo com a preparação do censo, a definição do grupo central que vai ser responsável por este censo, que se comece logo o trabalho, e que invistam para que seja da melhor qualidade possível.

Por: Cláudio FortunaGrande entrevista – Cláudio Fortuna faz ao Professor José de Carvalho

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