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João Lourenço e o dilema do cágado em Malanje

João Lourenço e o dilema do cágado em Malanje

Em 2002, durante a sua visita a Malanje, José Eduardo dos Santos testemunhou a maior e mais efectiva acção de protesto contra a sua presidência. Estava no auge do seu poder, meses depois da morte de Jonas Savimbi.

A população da cidade de Malanje acorreu em massa ao comício presidencial, mas para protestar. Os populares apedrejaram a tribuna presidencial, tendo impedido o então governador Flávio João Fernandes de lhes dirigir a palavra. Os populares exigiam em coro que José Eduardo dos Santos levasse o seu “cágado”, o governador.

Mais uma vez, a história repete-se. Agora, na presidência de João Lourenço e num acto comemorativo do Dia da Paz, a 4 de Abril. O vice-presidente da República, Bornito de Sousa, um filho de Malanje, testemunhou a exigência da população local para a demissão imediata do governador Norberto dos Santos “Kwata Kanawa”, com pedradas e coros de “leva o cágado daqui”. Entretanto, o vice-presidente, contra todas as evidências de vídeo que circularam nas redes sociais, veio publicamente desmentir que tenha havido um protesto. Referiu que houve, sim, uma reivindicação de “kupapatas”, motoristas, que foram proibidos de circular no casco urbano. Na verdade, essa proibição tem mais de dois anos; porque só agora causaria mossa?

Com poder absoluto e apesar de ser bastante orgulhoso, José Eduardo dos Santos reagiu à humilhação por que passou e regressou a Luanda, com Flávio João Fernandes “às costas”. Ouviu o povo de Malanje. Mas lá encontrou outros cágados, que se limitavam apenas ao enriquecimento pessoal e a manter o atraso humano e sócio-económico em Malanje.

Flávio Fernandes foi tão mau para os malanjinos, que chegou a vender combustível à UNITA, na altura em que a cidade se encontrava cercada pelos ex-rebeldes, durante a guerra. O mesmo homem bloqueava ajudas humanitárias para ter o monopólio da desgraça dos malanjinos e, como se dizia, só lhe faltava privatizar o cemitério, tal era o seu carácter de locupletação do património do Estado.

As queixas contra Kwata Kanawa são legítimas e a sua manutenção no cargo é insustentável. “O Norberto dos Santos só não privatiza o cemitério porque o povo não teria dinheiro para lhe pagar. O que se passa em Malanje é desumano”, lamenta Graça Campos, malanjino e jornalista.

Essa situação gera um dilema para João Lourenço, que se encontra nos Estados Unidos da América em gozo de férias. Em terras de Trump, João Lourenço foi assistir ao nascimento do seu neto, filho de Jessica Lorena Dias Lourenço e de Lúcio dos Santos. Lúcio dos Santos é, nem mais, nem menos, filho de Norberto dos Santos “Kwata Kanawa”.

“Norberto dos Santos e Julião António (presidente do Tribunal de Contas) são praticamente os donos de Malanje”, refere Graça Campos.

João Lourenço respeitará a vontade do povo sofredor de Malanje, ou fará ouvidos de mercador para proteger o seu compadre e sogro da sua filha?

Aqui temos o dilema do cágado.

Reza a história que Flávio Fernandes, sempre afoito a humilhar os seus concidadãos, afirmou numa reunião com os sobas locais que prosseguiria os seus abusos com impunidade. Perguntou aos sobas, em kimbundu, se alguma vez estes tinham visto um cágado a subir uma árvore. Referiu então que era um cágado e só sairia dali pela mão de quem o tinha colocado no cimo da árvore. Os sobas registaram a ofensa. Foi nesse mesmo encontro que Flávio Fernandes também celebrizou o aforismo segundo o qual “o cabrito come onde está amarrado”, para justificar a sua voracidade em abocanhar o património do Estado que estava sob sua gestão.

Proverbiais, os sobas aguardaram por uma oportunidade, que surgiu quando o “dono do cágado” visitou Malanje, na sua viagem triunfante como o “arquitecto da paz”. Obrigaram José Eduardo dos Santos, à pedrada, a remover o cágado da árvore que é Malanje.

Quando João Lourenço assumiu o lugar de “rei da selva”, dando continuidade às fábulas, teve uma bela oportunidade para enviar muitos dos governadores e ministros, de actuação sinistra, para a reforma. São governadores que impedem, a todo o custo, qualquer avanço económico-social das populações sob seu governo e que apenas promovem o saque e a regressão humana.

Um caso paradigmático é o de Kundi Paihama, com mais de 70 anos, que governa o Cunene de forma feudal. João Baptista Kussumua é outro “cágado”.

Os nossos “cágados”, nas fábulas narradas pelo MPLA ao longo dos seus 42 anos de poder, nada têm de juízo e sapiência normalmente atribuídas a esse nobre animal. Por cá, os nossos “cágados” usam a sua couraça como escudos de impunidade para os seus actos nefários, os seus desmandos e a sua incurável incompetência.

Pior que os governadores, só o “compadre” Augusto Tomás, ministro dos Transportes, que é diariamente vilipendiado nas redes sociais pela sua gestão danosa.

Malanje tem sido, desde a independência em 1975, a província mais castigada por comissários e governadores ineptos e vorazes. Os malanjinos lembram, com tristeza, que o então comissário Kota Neto perseguia os letrados com o seu “abaixo os do 5.º ano [do ensino secundário]”. Via nos malanjinos com alguma escolaridade uma ameaça à demagogia proletário-camponesa do MPLA e ao seu próprio analfabetismo. Maka Angola

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