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Deserções Massivas?

Deserções Massivas?

Como repórter identifico-me fundamentalmente com a área política. Por opção própria, se calhar no quadro de uma estratégica de sobrevivência profissional, estou emprestada à cobertura de outros sectores não menos interessantes. Mas, enquanto jornalista, continuo a ter a política como métier preferencial. Talvez por isso goste pouco de opinar em matérias com enfoque partidário. 

Por Luísa Rogério

Em países onde prevalece a tendência de se confundir o elementar direito à opinião com ofensas gratuitas, as rotulagens acontecem quase de modo natural. Evitar sempre que possível a partidarização das questões resulta de um posicionamento pessoal, embora isso não colida com a deontologia profissional que recomenda a rigorosa separação do género noticioso de outros com conteúdo opinativo. Qualquer profissional que honre a profissão sabe que notícias são factos expressos através de verbos. Opiniões comportam adjectivos.

Acho pertinente sublinhar que as excepções existem precisamente para confirmar as regras. E hoje é um daqueles dias em que não me apetece escrever sobre nada antes de tocar no ponto. Realçar a intensidade do sol, o desabrochar das flores, o chilreio dos pássaros e todas as pequenas questões que transfiguram a vida num belo poema, ainda que recheado de vicissitudes, fica para depois. Aos políticos assiste o direito de fazer o que entenderem com a própria reputação. Os políticos têm o direito de tirar proveito das situações. Do mesmo modo, políticos e não políticos gozam da prerrogativa de tirar ilações ao redor de movimentações trazidas à ribalta pela comunicação social. Carece de sustentação o argumento segundo o qual aspectos relacionados a determinada força partidária dizem respeito exclusivamente aos seus militantes, simpatizantes e amigos.

De vez em quando o nosso panorama político é abonado com situações interessantes. Em meados do ano passado o processo eleitoral da CASA-CE notabilizou o candidato Kalupeteka por ter demonstrado de maneira incomum admiração pelo adversário que disputou e conquistou a liderança da Coligação. O caricato candidato chegou a afirmar durante um debate televisivo que partilharia a presidência com Abel Chivukuvuku caso vencesse a disputa eleitoral. Assistimos aquilo a que se poderia chamar a “kalupetização” da política. No início deste ano o noticiário trouxe o então desconhecido José Culolo que recolocou na agenda a discussão do “Culolismo” como está a ser designada nas redes sociais a mudança de camisola partidária. Detalhe: as graves acusações assentes na prática de tribalismo atribuído à UNITA pelos seus rivais não foram cruzadas pela maioria dos órgãos que fez eco da conferência de imprensa.

O “Culolismo” não constitui novidade. Só mudou de nome. Desde 1992, depois da quase cinematográfica fuga de Miguel Nzau Puna e Tony Dacosta Fernandes, militantes históricos da UNITA que trocaram o partido então liderado por Jonas Savimbi pelo MPLA, surgiram muitas novidades do género. Na sequência do conflito pós-eleitoral o falecido Norberto de Castro, na altura um dos rostos mais mediatizados do Galo Negro também se juntou aos inimigos do passado. Seguiram-se outros com destaque para Jorge Valentim, do círculo restrito de Jonas Savimbi e a quem este tratava por colega por terem a mesma formação académica. O político oriundo do Lobito representa uma das mudanças mais radicais do discurso político já vistas em Angola. Seguramente vai inspirar interessantes pesquisas académicas.

Em vésperas de eleições, o fenómeno mudança de camisola ganha maior visibilidade. Volta e meia aparecem na média números interessantes. Na última sexta-feira foi anunciado ingresso de quinhentos ex-militantes da UNITA no MPLA só numa província. Dai a deserções massivas há uma diferença significativa. Das contas feitas sobram as perguntas inevitáveis: quais são as pessoas que enchem os comícios do Galo Negro? Quem elegeu os deputados do maior partido na oposição durante o pleito de 2012? Fantasmas não foram com certeza. Até porque o espectro da fraude tem sido levantado pela formação partidária liderada por Isaías Samakuva e não o contrário.

As evidências indicam que mudanças acontecem. É normal em democracia o cidadão escolher o partido no qual revê o seu perfil. Pode ser normal o dissidente convocar a imprensa para os acolhedores colherem dividendos. O que não parece tão taxativa é a garantia de os supostos dissidentes, motivados por insatisfações genuínas ou interesses circunstanciais, votarem no novo partido. A memória colectiva assinala que há alguns anos auto-proclamados ex-militantes da UNITA convertidos ao maioritário foram supostamente agraciados com viaturas de alta cilindrada e residências em condomínios fechados. Ao constatarem que não tinham nenhum documento que lhes atribuía a titularidade dos bens alguns desencantados voltaram à base. Desnecessário referir que o retorno nunca foi amplamente mediatizado.

Moral da história: todas as declarações públicas de mudança de partido e mais algumas não acabaram com a UNITA. Podem ter fragilizado os Kwachas em determinado momento. Para bem da democracia angolana os maninhos sobreviveram aos abalos. Perfilam-se ao lado do MPLA, da CASA CE, do PRS, da FNLA e dos partidos sem assento parlamentar. Todos juntos contribuem para que o nosso seja um país multipartidário, não obstante as peculiaridades da nossa política. De contrário, Angola continuaria a ser formalmente um arcaico país de partido único. Há outro dado a reter. Uns brilham sob os holofotes da mídia presumivelmente no âmbito de estratégias de marketing de impacto duvidoso. Ao mesmo momento outros aprimoram os deveres de casa. Batem as portas. Vão aos mercados. Conversam com zungueiras e ambulantes. Compilam os dados resultantes da crise, procurando marcar pontos junto daqueles que integram a categoria anteriormente designada “povo em geral”.

RA

 

 

Modificado emsegunda, 09 janeiro 2017 12:10

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