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O “ou… ou” intrigante

O “ou… ou” intrigante

Hoje, escrevo sobre os últimos desenvolvimentos à volta da sucessão presidencial no MPLA, porque, pelos últimos acontecimentos, momentos como estes devem ser registados e analisados para ler no futuro. Estes factos não podem passar assim sem registo, porque nunca, em 61 anos do partido que começou como movimento, a sucessão na sua liderança foi tão escrutinada, até por aqueles que não são seus militantes embora isso seja perfeitamente compreensível por ser o partido no poder desde 1975.

Por Santos Vilola

O último duelo que o MPLA teve foi com a oposição política, há sete meses, nas últimas eleições gerais de 23 de Agosto. De lá para cá, o desafio virou-se para dentro do MPLA. O partido de desafios regulares e de previsíveis vitórias começou a surpreender os mais atentos à política doméstica. Mexeu na estrutura interna – normal, porque vinha de eleições vencidas, mas com um presidente que não é o da República (a inversa também se aplica) -, mas passou a reunir os seus órgãos de cúpula com uma frequência inédita na história que o próprio partido construiu e sustentou de forma sólida e disciplinada.

Na última sexta-feira, o MPLA pode ter batido o seu próprio recorde histórico ao completar a quarta reunião em 15 dias de um órgão interno dirigido pelo seu presidente. No partido, poucos podem lembrar quando isso aconteceu. Se calhar nem mesmo no tempo da guerra ou do partido único, quando centraliza a economia, a defesa, etc. coisa do género terá acontecido.

Nos últimos dias, quando não era o comité central, era o órgão interno mais restrito, o bureau político, a reunir os seus membros. As revezes foram tantas que já ninguém aqui de fora a ver o cenário sabe quê órgão tem reunião para breve. Pode ser daqui a poucos dias, arrisco eu.

A semana em que o partido se viu “obrigado” a desmentir conversas de redes sociais sobre uma legada disputa intestinal pela presidência do partido – se José Eduardo dos Santos deve abdicar já a favor de João Lourenço - é a mesma em que a sucessão na presidência do partido foi assunto oficial na reunião do comité central. O intervalo entre o desmentido e a reunião em que se falou do assunto é de poucos dias.

E porquê o “O ‘ou… ou’ intrigante” - título deste artigo? É a parte do discurso de José Eduardo dos Santos, na última reunião do comité central, que aborda a data em que pode deixar a presidência do MPLA. José Eduardo dos Santos, que tinha anunciado, em Março de 2016, que, em 2018, deixava a liderança do partido, até já tinha começado a ler a frase, mas a meio teve de recomeçá-la para anunciar a realização “em Dezembro deste ano ou Abril de 2019” do congresso que vai resolver a questão da liderança do partido.

Se me permitem, gramaticalmente “ou…ou” é uma conjunção disjuntiva, que indica alternativa ou distinção. No discurso, o “ou…ou” foi colocado temporalmente no meio de anos diferentes, 2017 e 2018.

Se o primeiro “ou” cai no âmbito da “promessa” feita por José Eduardo dos Santos de deixar a liderança do partido – cá para mim um absurdo para quem veja a questão como uma promessa, porque não se trata de uma dívida deixar a liderança de um partido, mas um anúncio feito -, o segundo “ou” acirra os ânimos dos partidários da “promessa”, que o qualificam como faltoso à sua “promessa”.

Ora, é apenas o anúncio de uma data que sofre alterações em função dos contextos que o partido internamente tem vivido com muita intensidade nos últimos tempos, uma vez que, externamente, o Presidente que o partido “deu” para dirigir a República tem dado boa conta da sua missão. JA

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