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Criminosos têm família que é preciso respeitar

Criminosos têm família que é preciso respeitar

O recente assassinato de um homem indefeso, estendido no chão, cometido por um polícia, trouxe para a praça pública questões de vária ordem, entre as quais a pena de morte e abuso da autoridade.

Por Luciano Rocha

O objectivo destas linhas não é, alerta-se desde já, tomar posição a favor ou contra a vítima ou autor do crime. O que não significa forçosamente “neutralidade absoluta”, mas colocar na mesa dados que possam vir a contribuir para que cenas como a que culminaram com a morte de um homem e a prisão de outro não se repitam. Porque elas próprias concorrem para o aumento de clima de insegurança vivido em Luanda, principalmente nos bairros periféricos.

Alguns dos que viram o vídeo do assassinato - eu recusei-me a fazê-lo - arrependeram-se. E são homens feitos, que foram militares, habituados a cenários de guerra. O crime não ocorreu dentro de casa, em qualquer sítio isolado. Foi em plena via pública, em frente a populares. Que podem ser mães, pais, avós, irmãos. Até de qualquer um dos protagonistas do incidente. Evitável, acentue-se. Desconheço se, entre os assistentes, havia crianças, mas mesmo que não houvesse as novas tecnologias, com tudo de bom e mau que têm, encarregaram-se de lhes mostrar e voltar a mostrar. Tantas vezes quantas a curiosidade permite. E são elas quem mais nos deve preocupar.

O problema é de dificílima solução. Não há pai, mãe, professor que consiga impedir que elas tenham acesso a imagens que podem ser transmitidas por simples telemóvel. Que faz parte do dia-a-dia de qualquer jovem, adolescente, criança. E a de um homicídio não é certamente a melhor para quem quer que seja ver. Muito menos, se estiver numa fase de formação de personalidade.

As crianças, insisto, são sempre quem mais nos deve preocupar. Quando soube do assassinato - é disso que se trata - do eventual criminoso por um agente de autoridade, de imediato foram elas que me vieram à mente. Porque ambos podem ter filhos. Que no bairro, na escola, onde quer que estejam hão-de ser motivo de chacota de outros meninos, vizinhos e colegas. Há-de aparecer a primeira criança que em grupo não seja “capaz de tudo”. Até de ser cruel com iguais a ela, principalmente quando os alvos apresentam fragilidades.

Os filhos do ambos hão-de ver apontados dedos acusadores das mesmas mãos que antes partilhavam com eles telemóveis, lhes davam doces a provar. E, ainda por cima, quando entrarem em casa sabem que o beijo, a afago, o chi-coração, o colo do pai se transformou em saudade e fundiu-se com raiva pela crueldade do mundo.

Os pais, irmãos, companheiras e companheiros de eventuais criminosos têm igualmente fardo a transportar pelos caminhos e atalhos da vida. Agora mais do que nunca, com as televisões a catalogá-los e as redes sociais a mostrar-lhes os entes queridos com comentários de toda a espécie, defeitos ampliados, virtudes ignoradas.

Mas, a forma como o polícia matou recentemente um eventual criminoso trouxe igualmente para a ribalta do nosso quotidiano a violência da sociedade luandense, incluindo a de alguns agentes da autoridade.  Que tem como causas, entre outras, o clima de guerra que Angola foi obrigada a viver. Que originou, entre tantos males, a separação de familiares, um número enorme de crianças órfãos que se fizeram adultos à força e tiveram a rua como escola.

Alguns do que agora são polícias, tal como parte dos que se dedicam ao crime, nasceram e cresceram num país em guerra ou nos resquícios dela. O clima de violência esteve-lhes sempre próximo. O que, no primeiro caso, pode explicar o comportamentos menos condizentes com a corporação a quem pertencem. JA

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