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Não há inocentes

Não há inocentes

Não há inocentes. JES e sua parentela ficaram com a melhor parte do bolo, mas os outros não ficaram propriamente com migalhas. Por diferentes razões, os coetâneos de JES são obrigados a seguir-lhe as pisadas. Deixarem também a cena política.

Em Setembro, já está decidido, José Eduardo dos Santos (JES) deixará a presidência do MPLA. O acto marcará o epílogo da trajectória política de um homem que há 38 anos vem marcando a vida dos angolanos. Representará, também, a partida de um cidadão que deu o seu melhor quando se entregou a sério. Nacionalista, JES respondeu ainda jovem ao apelo da terra, aderindo de corpo e alma à luta de libertação.

A sua partida representa, também, o fim de um período cinzento na história de Angola. Se com uma mão fez o melhor que podia, foi até ao limite, manteve este país unido, deu o peito às balas quando a ameaça de desintegração provocada pela UNITA era inegável, com a outra mão ele desfez quase tudo isso.

“Sequestrado” por uma parte da família e pela sua entourage, JES fez do Estado angolano uma coutada privada. O que se vê hoje à volta do Fundo Soberano, a tentativa de transferência de 1.5 biliões de dólares para a Grã-Bretanha, numa operação que tinha o filho varão como sujeito e actor, a natureza dos contratos e adjudicações sem concurso público que beneficiaram outros filhos, são algumas das provas de como José Eduardo dos Santos se perdeu na caminhada. A forma como o general Kopelipa transformou o novo aeroporto de Luanda numa obra faraónica e privada mostra o desvario em que isto estava.

Para o bem de todos, este país não pode permitir, por um minuto que seja, que alguém mais venha a dispor do poder que JES dispunha até 26 de Setembro passado. Será bom para o país, como será bom para quem ocupa a presidência ou quem vier a fazê-lo. O que se viu nesta deriva mostra que não era apenas o país que precisava de ser salvo. JES precisava também, ele mesmo, de ser socorrido da sua própria deriva. A entourage e uma parte da família tomaram conta dele, tomaram conta do país, dispuseram do que era de todos, mas isso não o iliba de nada.

"Independentemente das razões político-constitucionais que o levam a sair, JES e a sua geração estão ligados por outra razão: cumpriram o seu papel! A nação agradece o quanto deram, mas têm que aceitar que chegou a hora de entregarem o testemunho."

Chegados aqui e perante o mal-estar que se sente em relação à figura dele e de parte da família, é líquido concluirmos que esta não era a forma como esperava sair de cena. JES percebeu, finalmente, que ninguém mais porá o pescoço de fora por ele. O mal-estar em relação a ele e aos seus acelerou o processo de transferência do centro de gravidade.

Não esperava ser empurrado para fora por imberbes como Anabela dos Santos e seguramente também não esperava que, de todos quantos deu a mão, Norberto Garcia e João Pinto, os últimos a chegar – na verdade de tão trôpegos e broncos nunca chegarão –, fossem os únicos (a par de Tchizé e de Isabel) a sentir as suas dores. Outros como Pitra Neto, se não se recolheram, “entregaram-se” às autoridades, como o fez Aldemiro Vaz da Conceição.

Tudo o que disse até aqui, não invalida o que disse em Agosto de 2001, quando, ao anunciar a sua primeira tentativa de retirada efectiva da política, disse que a sua geração já tinha cumprido o seu papel. Volvidos 17 anos, esta afirmação parece mais actual do que nunca. É daquelas coisas que sobrevivem ao tempo. JES envelheceu, a sua geração envelheceu, os que o ouviram dizer isso também envelheceram, mas a maldita afirmação está aí de pedra e cal. Inamovível e sem ferrugem.

Por conseguinte e independentemente das razões político-constitucionais que o levam a sair, ele e a sua geração estão ligados por outra razão: cumpriram o seu papel! A nação agradece o quanto deram, mas têm que aceitar que chegou a hora de entregarem o testemunho. Roberto de Almeida deixou a vice-presidência do MPLA; aos 75 anos de idade também deveria deixar o BP. França Ndalu tem 80 anos; deveria fazer o mesmo. Aos 76 anos, Dino Matross não deve continuar a gerir um gabinete do secretariado do MPLA; Magalhães Paiva “Nvunda”( 75 anos) e tantos outros anciões que JES acomodou em embaixadas ou nomeou como consultores ou administradores não executivos deveriam fazer o mesmo. Ao não seguirem o exemplo de JES, esses anciãos estão a comportar-se como “donos” do MPLA, coisa que muitos dele censuram em JES, o antigo dono disto tudo, DDT.

Se esses mais velhos querem portar-se à altura do MPLA deveriam acompanhar JES na saída. Seria a melhor homenagem que lhe poderiam prestar. Gente que gaba a sua magnanimidade deveria exercer um pouco de grandeza. Seja por ele, seja pelo MPLA, mas que seja sobretudo pela nação.

Por outro lado, se por acaso alguém já não se lembra, recordemos. JES esqueceu-se de alguns companheiros de jornada, mas ninguém deve ignorar o seguinte: não há inocentes. Como se diz na obra de Pepetela “Jaime Bunda Agente Secreto”, quem parte e reparte se não é burro, fica sempre com a melhor parte. Já sabemos quem ficou com a melhor parte. Mas também é verdade que as outras partes não são exactamente migalhas. Por conseguinte, caros “maquizards” façam o que a nação espera. Que ninguém tome a saída de JES como uma oportunidade de mandar no MPLA. Que ninguém menospreze as outras gerações. CA

Last modified onDomingo, 06 Maio 2018 01:12
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