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Vendedores de carros usados reclamam dos limites decretados pelo Presidente da República

Vendedores de carros usados reclamam dos limites decretados pelo Presidente da República

Tão logo foi publicado o Decreto Presidencial a alterar o contexto da importação de carros usados, o país agitou-se. Para muitos é o reavivar da esperança de finalmente adquirir um carro, todavia, para os veteranos no negócio a situação é igual a de um agricultor que aguarda por chuva abundante mas a natureza lhe oferece apenas chuviscos

Afonso Eduardo Senda está no negócio de venda de automóveis usados há quase duas décadas, entretanto, não está animado com o recém-publicado Decreto Presidencial que vem introduzir mudanças no negócio. Para si, os prazos de 6 anos para veículos ligeiros e 10 para camiões são “muito apertados”, e ao invés de animar os operadores do sector acabou por cair como um balde de água fria. A título de exemplo, cita o mercado europeu, que conhece e onde os carros são vendidos a crédito, e ao fim de cinco anos os compradores ainda não pagaram a totalidade do custo da viatura. “O carro de 6 anos de uso na mão de um europeu é quase um veículo novo.

Alguns nem chegam a 50 mil km. Nesta altura, eles ainda não são verdadeiramente os proprietários porque estão a reembolsar à entidade credora. Sendo assim, a alternativa será o mercado do Dubai, onde os importadores podem encontrar carros nestas validades, porém, a outra grande dificuldade será o acesso às divisas. Revela que ele e demais colegas quase bateram no fundo do poço, desde que as divisas se tornaram escassas no nosso mercado. “No passado chegamos a comprar carros com um investimento de 100 mil dólares, mas hoje nem 100 USD consigo ver durante meses. O problema é que até as transferências bancárias estão suspensas, um facto que inviabiliza completamente o negócio.

500 Empreendedores e centenas de revendedores em falência total

Afonso Eduardo Senda é peremptório em afirmar que a zona do Palanca foi, até antes de interdição, o maior mercado de venda de automóveis usados em Angola. O local chegava a ter parqueados entre 500 a 1000 veículos. Em termos de força de trabalho, o nosso entrevistado estima que perto de 500 pessoas chegaram a ter negócio no local. Cada um destes, a quem designa como “patrões” engajavam entre 3 a 10 pessoas que se encarregavam de negociar directamente os carros e por via disso garantiam as suas “luvas”. “É simples: multiplica 500 por 3 e já terá a noção de quantas pessoas ficaram sem o sustento com a interdição da importação dos carros e ocasião”. Para muitos operadores do ramo as consequências são extensivas a outros sectores, nomeadamente o de prestação de serviços e da agricultura. “Hoje há menos gente a trabalhar como motorista e, consequentemente, outros tantos que deviam ter emprego de cobradores ou ajudantes estão em casa”, mencionou um dos nossos entrevistados.

Na então maior feira de automóveis usados, hoje sobrevivem 34 “patrões” que tiveram que ser engenhosos. Com o fim da principal fonte de importação de veículos, a solução foi virar- se ao mercado local. “Hoje compramos carros usados no país. Reparamos e pintamos e expomos aqui todos os dias para garantir a continuação do negócio”. Para fazer jus ao ditado, “a união faz a força”, a trintena de sobreviventes associou-se e constituiu a Organizações Comavip, transporte, rent-a-car, venda de viatura e prestação de serviços de que é director Afonso Eduardo Senda. Esta foi a alternativa encontrada para sobreviver à “hecatombe”. “Todo este espaço já foi pequeno. Chegamos a arrendar o parque por mais de meio milhão de kwanzas, mas hoje até o proprietário do mesmo é tolerante connosco. Quando bate a sorte e um de nós vende um veículo conseguimos pagar a empresa de segurança e o aluguer do espaço”, confessa.

Vendedores divergem

Caldas Manuel, outro operador do sector com largos anos de experiência, está mais animado com a medida do Presidente da Republica. Como justificou, “mais vale um na mão do que dois a voar”. Diz que vislumbra o fim da travessia no deserto de que foram vítimas nos últimos 6 anos, com falência parcial ou total de muitos colegas. Caldas vê na decisão do PR alguma oportunidade para reavivar o negócio. Sugere que daqui para frente vai ser necessário capacidade empreendedora. Por exemplo, menciona que dada a exiguidade de recursos, juntar dinheiro e mandar apenas um importador, ao invés de seguirem todos como no passado, podia ser uma alternativa.

Para ele, o importante será o nível de união e capacidade de “reinvenção” dos vendedores de carros de ocasião. William B. Colombo, outro vendedor que se iniciou no negócio como ajudante de despachante, discorda de Caldas e considera que “o PR não ajudou em nada, atendendo os prazos muito apertados que acabou por inserir na medida”. Para ele, pouco ou quase nada vai mudar e os “males” que deviam ser evitados com o incremento de postos de trabalho vão prevalecer. “Uma boa decisão teria sido 10 anos para ligeiros e 15 para pesados. Isso ajudaria bastante. E, por outro lado, a questão da escassez de dólares no mercado angolano. “Com a nota de 100 USD a 40 mil Kwanzas penso ser impossível voltar a fazer negócio de venda de carros usados” setencia Colombo.

Antigos “matocheiros” na FILDA viraram-se para o crime

Luis Oliveira, associa o crescimento da delinquência na zona da Filda e arredores com o fim do negócio de carros de ocasião na antiga feira de Luanda. Conta que em tempos de “prosperidade”, meio mundo encontrava o ganha pão naquele local para onde eram encaminhadas milhares de viaturas importadas. Segundo Luís, o negócio na FILDA abria oportunidade de amealhar uns tostões a todos os que aí se concentravam todos os dias. O auxílio aos proprietários em muitas das suas necessidades, era “uma verdadeira lavra para centenas de jovens desempregados”. Uns eram pagos para empurrar os carros, outros por emprestarem as suas baterias, os cabos de chante e auxiliar no arranque dos veículos que, em consequência do tempo de paralisação, ou calcinavam os rodados ou ficavam com as baterias descarregadas. “Ali todo o mundo comia. Uns tinham como negócio vender combustível, atendendo que os veículos chegavam praticamente com os depósitos vazios. A ansiedade de ter o carro depois de meses de espera era também uma oportunidade, porque os importadores não descansavamante a perspectiva de regressarem à casa com os seus veículos”. OPAIS

Last modified onQuinta, 21 Junho 2018 10:22
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